sexta-feira, 2 de junho de 2017

PARALISIA CEREBRAL E AS ARTES II

Como prometi, mais um pouco de arte com o garoto que atendo. Ele ficou muito tempo nas escolas pelas quais passou e sempre sem fazer e aprender nada. Era aquela velha história: "tem Paralisia Cerebral e muitas dificuldades motoras, então, é melhor não fazer nada porque ele nunca conseguirá fazer coisa alguma". 

Mas, não é bem assim. Em meio a tantas dificuldades há uma pessoa que pensa, sente, deseja quer agir,   como todos nós. o que precisam é um olhar diferenciado para suas dificuldades e tratá-lo como qualquer outra pessoa, respeitadas as suas limitações. 

Como disse na postagem anterior, este é apenas um começo. E como todo começo temos que começar pelo que é básico e bem devagar. Por isso, resolvi verificar se ele sabia rasgar papéis. Separei algumas folhas coloridas de revista e pedi que as rasgasse. 

Foi um susto para ele. Ficou parado com as folhas uma das folhas na mão. Peguei outra e mostrei como fazer. Depois deixei a tarefa a cargo dele. O garoto puxava a folha e com a força que fazia, as folhas se rompiam. Foi preciso pegar em suas maõs e ensinar o movimento de rasgar. Após algumas tentativas, surge um olhar brilhante em seus olhos. Conseguia afinal. Depois, fizemos uma colagem aleatória, que ficou assim:

Semanas depois, voltei aos recortes com as mãos. Agora usando um papel mais grosso (color set). Embora já não fosse surpresa, voltou novamente a puxar o papel. Novamente peguei em suas mãos para repetir o movimento. Foi mais rápido desta vez. E veja como ficou:


A próxima atividade foi perto do Dia das Mães. E preparei uma atividade para que ele ofertasse para a sua genitora. A atividade foi entregue a ele semi pronta. Com o contorno do vaso, um fundo mais escuro com as folhas e pontos marcados para que colasse as flores. E ele poderia cola-las onde achasse que ficassem mais bonitas. E o trabalho ficou assim:


 

No nosso último encontro, resolvi trabalhar com tinta. O objetivo era descobrir que novas coisas ele podia fazer. E o resultado final foi este:



Todas estas atividades não foram trabalhadas simplesmente para "matar o tempo" ou porque era bom e bonito. Todas tiveram objetivos definidos, além de verificar e descobrir novas possibilidades é claro. Rasgar papel ajuda na coordenação motora, na preensão, no movimento dos dedos e do pulso, no movimento contrário das mãos (principalmente da esquerda, que ele pouco utiliza). Ao aumentar a gramatura do papel aumento a dificuldade e torna um exercício conhecido em outro mais complexo.

A atividade para a mãe, foi uma espécie de quebra-çabeça, que além do desenvolvimento da preensão, envolve movimentos mais delicados que se contrapõe com os espasmos que geram os movimentos mais bruscos. E ele precisa aprender a controlá-los.

A pintura envolve tudo isso junto. Une coordenação motora, desenvolvimento da preensão, do gestual mais delicado e a precisão do traço. Além disso, dá mais autoconfiança e melhora a autoestima.

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