segunda-feira, 12 de março de 2018

PARALISIA CEREBRAL E JOGOS DE OBSERVAÇÃO

OLÁ, PESSOAL! 

Os jogos de observação, como o nome diz, trabalha a observação de detalhes realizada pela visão. Normal para quem não tem problemas, mas muito difícil para quem tem baixa visão ou problemas de figura e fundo como acontece com alguns PCs.

Por isso começo com jogos bem fáceis e vou, aos poucos, aumentando as dificuldades. Dessa maneira, trabalho com um jogo que costumo trabalhar para ensinar as noções de "DENTRO E FORA". Trata-se de um desenho de um liquidificador grande, desenhado numa folha de papel sulfite e colada numa base de papelão. As peças (também desenhadas)  possuem frutas e alguns legumes (que podem servir para fazer suco) e outras peças que não podem ser moídas pelo liquidificador (como parafusos, machado, bolinhas de gude, faca etc)

O jogo consiste em colocar as peças corretas no copo do liquidificador e deixando as outras fora dele.


O segundo jogo, já mostrado em outra ocasião é um quebra-cabeça com apoio visual. Embaixo tem um desenho qualquer e peças soltas que colorem o desenho. A montagem exige que cada peça seja colocada em um lugar certo. A observação da forma da figura a ser colocada e a observação do espaço ajudam a desenvolver a noção de detalhe.


Outro quebra-cabeça é o de uma cena pintada com lápis ou tinta, deixando a figura em branco ou com alguns detalhes pequenos. A figura, também colorida, é recortada em partes. E a criança deve descobrir onde colar cada parte da figura.



O terceiro jogo é formado por uma figura qualquer recortada em formas geométrica. Na folha, traça-se uma moldura e cola-se a parte central da figura que terá uma forma desejada (quadrado, retângulo ou círculo). Dessa forma, partem as divisões da figura que deve ter formas variadas e irregulares. Cabe ao jogador descobrir as peças que formam a figura.


O quarto jogo é um quebra-cabeça com poucas peças (4 ou 5) dependendo da idade do jogador. Neste caso, mostra-se a figura completa, desmancha-se e entrega-se ao jogador para que  possa montar sozinho.


O último jogo desta postagem é um SUDOKU, um jogo chinês. Este é um jogo inicial para aprendizado do jogo.É um jogo mais difícil porque o jogador precisa ter a noção de linha e de coluna para jogá-lo. Este jogo já foi apresentado aqui, inclusive ensinando como fazê-lo.

O jogo consiste em um tabuleiro com 4 linhas, 4 colunas e 4 figuras repetidas 4 vezes cada uma. 

Como jogar: O jogador coloca na primeira linha 4 figuras sem repetir.Na segunda linha, coloca outras 4 (semelhantes às primeiras), mas não pode repetir a mesma figura na mesma coluna.E repete na 3ª e na 4ª linhas e sem repeti-las nas colunas seguintes.


Caso erre, espere terminar o jogo e peça que verifique se tudo está correto. Caso não consiga de forma alguma descobrir o erro, mostre cada linha e peça nova conferência.

Estes jogos servem tanto para PCs como para Deficientes Intelectuais de qualquer síndrome.

sexta-feira, 2 de março de 2018

PARALISIA CEREBRAL E JOGOS DE CONSTRUÇÃO


Muita gente pensa que as pessoas com Paralisia Cerebral não podem brincar ou jogar. Mas, novamente, estão enganados. Eles podem e devem ser estimulados a realizar todas as atividades possíveis de acordo com suas possibilidades. E desde muito cedo.

O PC em questão já é um jovem. E um jovem que não foi estimulado a realizar qualquer atividade. No início, repetia o que eu mostrava.

 



Depois, aos poucos, fui mostrando a ele outros jogos. Mostrava como fazer, desmanchava e deixava que fizesse sozinho.

 


E o brilho de seus olhos valeu a espera. Brincou bastante com o "trenzinho" que montou. De repente, sentiu-se sem graça, como se fosse coisa de criança e não quis mais brincar. Respeitei esse momento. Dei um tempo, e no final do atendimento conversamos sobre o assunto. No final, sentia-se feliz novamente.

Alguns atendimentos mais tarde apresentei outro jogo. Um jogo chamado "Engenheiro", que serve para construir casas, pontes, ou outra coisa qualquer.

No início, ficou meio atrapalhado com tantas peças. Montei uma casa simples. E como anteriormente, desmanchei tudo e deixei que ele fizesse. E ele fez. Porém, num espasmo, um pequeno toque destruiu o que tinha feito. 


Ele pensou em desistir, mas logo reiniciei outra e deixei que ele fizesse o restante. E o resultado está aqui.



O que se trabalhou com estes jogos? Muita coisa. Na Coordenação Motora Fina, a preensão, a delicadeza do gesto (apesar da hipertonia (musculatura rígida) e dos espasmos), o contato com texturas diferentes e o equilíbrio. 

Nos Conteúdos: uma revisão das formas geométricas simples e sua utilidade. Na arte, a sequencia de passos, a organização do trabalho final e o desenvolvimento da criatividade. 

Mas, o mais importante, não se vê, nem se pode mostrar: a melhora da autoestima e da auto-confiança, o prazer em apresentar o trabalho para a foto, para os pais e para este blog, com a certeza de que ele está ajudando outros professores e outros pais a fazerem o mesmo com outras crianças ou jovens que, tanto quanto ele, precisam disto.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

FAZENDO ARTE III

COLAGEM COM TEXTURA

Quando digo que entrego um trabalho semipronto é assim: 


Isto porque, as crianças ou jovens com Paralisia Cerebral ou Deficientes  Intelectuais quando chegam para atendimento, eles não têm a menor ideia do que devem fazer no sentido de arte. O máximo que conseguem é colar aleatoriamente. Por isso, é importante que conheçam o "fazer artístico" aos poucos. Nestes trabalhos conversamos e procuro mostrar que, o que está atrás e preciso ser feito primeiro.

Neste trabalho, o que vem em último plano é a copa da árvore porque está mais atrás, mais longe. Reparem que o telhado da casa amarela ficou em cima da copa da árvore. Então espalho todas as peças sobre a mesa e ele vai escolhendo  e testando o que vai em cada espaço vazio.  Também expliquei a questão da luz, ou seja, onde bate o sol fica mais claro. E aqui reparem que as partes claras dos telhados estão voltadas para o sol.

Em segundo plano, vem a estrutura das casas. Supondo que pegue o telhado primeiro, pergunto se ele já viu uma casa ser construída. Se sim, por ele mesmo já solta a peça errada e pega a correta. Se não, pergunto o que ele faria primeiro: o telhado ou as paredes das casas. Ele pega e cola.

Em primeiro plano, o telhado. Ele cola e termina o trabalho. Então conversamos de novo sobre a imagem desenvolvida. Por exemplo: se a imagem é do campo ou da cidade, se as casas são ricas ou pobres, se elas são confortáveis ou não, etc. Depois de tudo isso, pode-se trabalhar a produção de texto com esta imagem.

 

Assim, além da Coordenação Motora Fina, trabalha-se uma infinidade de coisas: conhecimentos novos, noção de mundo, conceitos de arte, estética e o próprio fazer artístico.

E aí você deve estar se perguntando: E a criatividade dele? Para quem foi sempre considerado incapaz, embora a tenha, não foi desenvolvida a contento. Por isso, é preciso começar por algum lugar.

Um outro trabalho muito gostoso de fazer é a colagem com palitos de fósforo. O desenho é feito integralmente. Aqui o objetivo é ensinar a noção de contorno, coisa que tem muita dificuldade em entender o que seja. Como ele tem muita dificuldade motora, eu passo cola e ele cola os palitos.



Depois de pronto o trabalho, voltamos a conversar. Desta vez, trabalhando a imaginação. Pergunto onde essa casa fica, quem mora nela, se tem vizinhos por perto, como ela é por dentro (que cômodos ela tem) etc de acordo com as resposta. Depois, com todas essas informações, ele pode criar um texto oral, que eu escrevo porque ele não tem condições pelo menos por enquanto.

Nestas outras atividades, o objetivo é a resolução de problemas. Mas também trabalha-se o contorno.  Primeiro faço um risco qualquer numa folha. Corto um pedaço longo de barbante ou outro fio grosso qualquer e entrego a ele, pedindo que o cole sobre a linha. E, por conta de sua dificuldade, eu passo a cola e ele põe o fio.


Uma outra atividade que vem na sequencia  e com o mesmo objetivo da atividade anterior, a proposta é diferente. Entrego a folha e o fio (1,5 a 2 m) e peço para que o coloque inteiro sobre o papel e sem deixar sair para fora.

Ele demorou muito pensando em como resolver a questão. Pôs o fio esticado de várias formas possíveis, mas em todas, ficavam partes de fio para fora. Esticou novamente na vertical (e para isso teve que esticar o braço para o alto = exercício motor) e nada. Em determinado momento, já querendo desistir de tentar, enrolou o fio sendo ajudado pelo próprio corpo. Depois de enrolado, colocou sobre a folha. E eis o resultado:


continua na próxima postagem com outras atividades.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

FAZENDO ARTE II

RECORTE COM AS MÃOS

Esta é uma atividade difícil para quem tem problemas motores  Isto porque exige que as duas mãos trabalhem em conjunto, mas em sentido contrário. Mas não é impossível de ser feita. 

A tendencia é que puxem o papel até que ele se parta. Mas com jeito, muita vezes pegando na mão do aprendiz, ele entende o que deve ser feito e realiza a atividade. 

 




RECORTE COM TESOURA

Depois de trabalhar bastante deste jeito para adquirir habilidade, pode-se passar para o uso de instrumento, ou seja, da tesoura.

O primeiro passo é cortar aleatoriamente para aprender a usar a tesoura. Repete-se até que domine esse instrumento.

O segundo passo, é o recorte de linhas retas. Para isso, traça-se linhas num folha. Assim:

A partir deste momento, podemos ir complicando aos poucos. Como este, por exemplo:



Aguarde mais novidades.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

FAZENDO ARTE COM PARALISIA CEREBRAL

Muitas pessoas acreditam que alguém que tenha paralisia cerebral não pode fazer nada. Na verdade, só não conseguem fazer algo se, desde crianças, os adultos fizerem tudo por ele, para ele e no lugar. Dessa maneira, essa pessoa se sentira realmente incapaz.

A nossa tarefa como profissionais da Pedagogia: mostrar a todo momento que eles não são, nem nunca foram, o que pensavam ser, ou melhor, o que outros fizeram com que eles pensassem dessa maneira.

Então, qual o caminho para fazê-mudar seu modo de pensar a vida e de si mesmo? A resposta é simples: com ATIVIDADES ARTÍSTICAS. Mas é preciso respeitar suas dificuldades indo do simples para o complexo aos poucos e constantemente.

Mostro aqui o que tenho feito com o PC que atendo. Um jovem que possui pouca criatividade porque nunca desenhou, nem qualquer outra atividade deste tipo. Estas atividades não se destinam somente aos PCs, mas as crianças e jovens com deficiência intelectual também.

COLAGENS

As primeiras colagens foram semi-pronta, ou seja, partes coladas, pontinhos marcando os lugares onde colar. O objetivo: mostrar as possibilidades. 


A partir daí, nas próximas colagens, já dizia a ele para colar onde quisesse. E ia dando sugestões quando percebia que ele colava muito separado ou colar sobre outra forma quando não havia muito espaço. E ele fez uma porção deste tipo.


Fui percebendo que ele só colocava  uma peça sobre outra se eu o lembrasse. Calculei que ele não havia desenvolvido a criatividade e para que isso acontecesse, era preciso agir de outra forma. E passei a usar um apoio visual, para isso, usei formas geométricas. Assim, bastava que ele encontrasse a forma adequada para cada espaço. O resultado foi este robô, que mais tarde serviu para uma produção de texto oral. 



Após trabalhar outros desenhos como as do robô, passei a usar uma espécie de legenda: pequenos círculos para as flores.  O restante estava pronto. Trabalhei aqui, a percepção dos pequenos círculos devido a baixa visão.

 
(Natal de 2016)

Numa segunda etapa, a legenda contava com três etapas: linhas grandes (para os cabos), traços pequenos (folhas) e pequenos círculos (flores). Aproveitei este trabalho para mostrar a ele as diferentes texturas dos materiais utilizados. Várias outras do esmo tipo foram realizadas.


Como terceira etapa, além da legenda, procurei trabalhar a sequência de colagem num motivo mais elaborado. O objetivo mostrar que tudo o que está por baixo, deve ser feito primeiro. Por meio de questionamentos como "o que acontece se colocarmos as flores primeiro"? E a resposta foi clara: - As flores caem. 

Depois disso, baseados nas atividades anteriores, ele já foi dizendo e apontado as linhas pequenas: - Aqui vão as folhas e apontando os pequenos círculos: - Aqui as flores. E assim foi feito.


Com a proximidade do natal de 2017, coloquei sobre a mesa o vaso e a árvore. Na folha havia apenas uma linha pontilhada. Mostrei a ele que a colagem deveria começar dali. Pedi que colocasse ali a figura a ser montada. O objetivo era o de avaliar os conhecimentos básicos que havia ensinado. mais que depressa ele pegou o "vaso" e depois, a "árvore" sem colar. Pronto: aprendizagem realizada. 

A colagem foi realizada em seguida. E para dar um ar mais festivo, colou bolinhas de papel crepom, trabalhando mais uma vez a preensão indicador-polegar e nova textura.



Aguarde outras formas artísticas que foram 
trabalhadas, na próxima postagem.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A AVALIAÇÃO, O DIAGNÓSTICO e TRATAMENTO DA PARALISIA CEREBRAL

Nenhum bebê que nasce com Paralisia Cerebral apresenta estigma, ou seja, sinais de que possui uma lesão cerebral. Mesmo os pés equinovaros (voltados para dentro e joelhos abertos para fora) podem ser facilmente confundidos com outras causas. Isto significa que não há como saber.


Durante os três primeiros meses de vida também não apresentam qualquer indicio de que há algo de errado. Esta é uma fase de reflexos e todos os bebês passam por ela. Já no 4º mês, alguns sinais podem ser observados. As mamadas que eram fartas nos meses anteriores, parecem não esvaziar completamente os seios. Engasgos e golfadas tornam-se mais frequentes a cada semana.

A partir do 4º mês, os movimentos de pernas e braços diminuem naturalmente para todos os bebês, incluindo quem tem Paralisia Cerebral. É nesta época que os movimentos reflexos vão cedendo espaço para os movimentos voluntários. Erguer os braços, estirar as pernas de quando em quando, mudar a cabeça de posição são ações normais para a maioria dos bebês. Mas isto não acontece com quem tem Paralisia Cerebral. Embora queiram, não conseguem fazê-lo.

Durante o final do 4º e meados do 5º mês podem surgir movimentos exagerado, semelhantes a sobressalto em que braços e pernas estiram e a musculatura ficar tensa e endurecida ou aparecer movimentos muito rápidos. Estes movimentos são facilmente percebidos pelas mães porque são bastante estranhos porque são frequentes e repetitivos. E se aparecerem, é o momento em que a família deve procurar ajuda profissional, porque há algo de errado. Bebês normais não apresentam esses movimentos.


Infelizmente, diante destes sintomas, as mães procuram se aconselhar com pessoas “mais experientes”. Costumeiramente, essas pessoas costumam dizer afirmar “que está tudo bem, todos os bebês agem dessa maneira, que é melhor esperar mais um pouco porque pode ser algo passageiro”. E assim, o tempo vai passando.

Mãe, lembre-se:
·        Siga a sua intuição ao se deparar com movimentos estranhos de seu filho e procure rapidamente o pediatra e insista numa pesquisa neurológica.

Além do tempo gasto com os tais “conselhos”, marcar as consultas, fazer os exames e esperar pelos resultados leva mais outro tempo. E se fizermos as contas o diagnóstico acaba acontecendo quando o bebê terá pouco mais de um ano. E aí pode ser tarde demais.

A Paralisia Cerebral se instala aos poucos. Aparece um efeito aqui, outro ali. E quando os efeitos acontecem, a lesão já fez um bom estrago, minando e emperrando a musculatura e as articulações nos movimentos voluntários. E esse estrago é devastador. Por isso, quanto mais depressa for diagnosticado e tratado, menos efeitos devastadores a Paralisia Cerebral produzirá porque esses efeitos serão monitorados e haverá maior controle sobre eles.

Lembre-se:
·        Pense sempre que a rapidez ou a demora na procura do profissional pode definir a gravidade que seu bebê terá no futuro.


O DIAGNÓSTICO

O pediatra deve encaminhar ao neurologista pediátrico. Este, por sua vez, precisa avaliar as condições físicas do bebê, ou seja:
·    - Verificar a presença de atrasos no desenvolvimento motor, se são ou não persistentes, se são anormais ou não, e se os reflexos defensivos (se existe ou não o apoio do corpo sobre os braços, como se fizesse uma flexão);

·      -  Entrevistar os pais para obter detalhes do quando e como foram percebidos os efeitos nos movimentos e se há outros casos na família.

·        - Realizar exames físicos minuciosos para eliminar a possibilidade de degeneração do SNC, de tumores espinhais ou distrofia muscular (doença ataca e atrofia os músculos levando à morte prematura).

·        -   Encaminhar para exames com outros profissionais, tais como: eletroencefalograma (EEG), tomografia computadorizada (TC), tomografia de Emissão de Positrons (PEC-TC) – para a localização da lesão no espaço cerebral com mais precisão, para detectar problemas no ramo central dos neurónios (desmielinização), coágulos sanguíneos ou células cancerígenas no cérebro, detectar doenças desmielinizantes e processos infiltrativos (infecções). É um exame caro e os planos de saúde que muitas vezes não os fazem. Exames adicionais podem incluir testes das funções auditiva e visual. De posse de todas estas informações, é encaminhado para o tratamento.

O TRATAMENTO

O tratamento também é multidisciplinar, ou seja, realizado por um grupo de profissionais de diferentes setores e que trabalham em conjunto, tais como: otorrinolaringologista, oftalmologista, ortodontistas, ortopedistas e cirurgiões ortopédicos e outros (se for preciso), que cuidarão do controle físico. Além destes, o psicólogo (ajudar e orientar a família), o terapeuta ocupacional (ensinar a trabalhar os movimentos necessários como mastigar, engolir, movimentar o corpo e os membros), fonoaudiologistas (ensinar os movimentos da fala), e mais tarde, o psicopedagogo (para acompanhar as questões escolares).

Todos esses profissionais possuem abordagens e objetivos específicos a serem cumpridos no tratamento e um objetivo comum: a reabilitação da pessoa com Paralisia Cerebral. São tratamentos demorados, ou seja, levam alguns anos dependendo de cada caso. No entanto, é um trabalho benéfico, sendo que nenhum deles pode ser desprezado ou substituído.

Embora cada profissional faça a sua parte individualmente, todos colaboram para um único fim: a reabilitação física, mental e emocional do paciente. Reabilitar significa torná-lo capaz de realizar coisas com autonomia (por ele mesmo) que são comuns no cotidiano. É a autonomia que nos traz o bem-estar e nos prepara para o futuro.

sábado, 6 de janeiro de 2018

EFEITOS DA PARALISIA CEREBRAL

A Paralisia Cerebral é diagnosticada pelos efeitos que ela causa nos indivíduos. Sendo assim, o diagnóstico pode ser feito pela observação das disfunções (problemas) motoras características da região piramidal, da região extrapiramidal ou pela topografia dos prejuízos que os indivíduos apresentam.

1- AS DISFUNÇÕES MOTORAS NA REGIÃO EXTRAPIRAMIDAL

Entende-se por disfunção o mau funcionamento dos músculos que atuam nos movimentos provocados por uma lesão. Essa disfunção depende do tamanho da lesão (grande ou pequena). Motora, porque se referem aos movimentos. Logo, por serem provocados pela lesão variam, os movimentos são anormais e involuntários. A maioria desses movimentos não provocam dores como muitas pessoas acreditam. 

Como já vimos, a região extrapiramidal são os caminhos antes e depois de sua junção, chamada de “pirâmide”. São eles:

a) as atetoses – que são movimentos lentos, contorcidos e com tremor nos dedos. Podem acontecer nas mãos e/ou nos pés. Em alguns casos, pode-se perceber esses movimentos também nos braços, pernas, pescoço e língua.


b) as ataxias – é a falta de coordenação dos movimentos voluntários e do equilíbrio que influencia no desempenho funcional. Este movimento aparece em 88% dos casos da PC.
c)  coreia  ou choreia – é um movimento desordenados e rápidos assemelhando-se a uma dança. 

d)  os espasmos, espásticos ou hipertônicos – causam um aumento do tono muscular, ou seja, ficam enrijecidos.

e) os mistos – Qualquer um desses tipos de movimentos pode aparecer em conjunto com outro.

f) os distônicos – são os movimentos que sofrem contrações involuntárias e são repetitivos. Apenas os movimentos distônicos podem produzir dores em certas partes do corpo, pois obriga o indivíduo a certas torsões ou posturas inadequadas.
Estes movimentos perduram pela vida a fora.


2- TOPOGRAFIA DOS PREJUÍZOS NA PESSOA

A localização exata da lesão é chamada de topografia. Como já vimos, a localização da lesão pode estar antes ou depois da “pirâmide”; dentro dela, no cerebelo ou no SNC (Sistema Nervoso Central. Dependendo dessa identificação, é preciso conhecer a extensão da lesão e a(s) área(s) afetada(s).  Por prejuízos entende-se os membros e órgãos afetados, ou seja, paralizados. Esses prejuízos podem ser:

a) a hemiplegia - é a paralisação dos membros, sendo os mais comuns o dos membros superiores. A hemiplegia sempre vem acompanhada de movimentos espásticos (espasmos) e da hiperreflexia (exaltação ou exagero nos movimentos). Essa reação é involuntária e revela que a lesão se encontra antes da região piramidal.
pés equinovara

Na hemiplegia, os membros superiores e os inferiores ficam semiflexionados. As pernas podem ficar hiperestendidas, os pés assumem a postura equinovara (pés voltados para dentro e dedos muito flexionados em arco) e pode aparecer um reflexo, no qual os dedos do pé se estendem e se abrem em forma de leque. Este reflexo é conhecido como Reflexo ou Sinal de Babinski.

O Reflexo de Babinski é um reflexo plantar (da sola do pé) que indica lesão na medula espinhal (nos cordões nervosos que formam o Sistema Nervoso SNC. Suas causas podem ser: anemia perniciosa, anestesias, ataxia de Friedrich, acidente vascular cerebral (AVC); encefalopatia hepática, esclerose lateral amiotrófica (ELA), hipóxia. meningite, traumatismo craniano, poliomielite dentre outras.

b) a hemiplegia bilateral – é a paralização que ocorrer com os membros do mesmo lado do corpo, ou seja, com o braço e a perna do lado direito ou do lado esquerdo.

c) A quantidade de membros paralisados recebe a seguinte classificação:
·         monoplegia - um só membro (superior ou inferior)
·         diplegia – dois membros, podendo ser os dois braços, duas pernas ou um braço e uma das pernas. Ocorre em 10 a 30 % dos pacientes, sendo a mais comum em prematuros.
·         triplegia – três membros afetados podendo ser os dois braços e uma perna ou as duas pernas e um dos braços. 
·         tetraplegia ou quadriplegia – os 4 membros são afetados. Ocorre de 9 a 43% dos pacientes. A lesão é difusa e bilateral no sistema piramidal, com tetraparesia espastica com intensa semiflexão


Dependendo do tamanho da lesão, outras áreas podem ser afeitadas e é o que chamamos de comorbidades:

BOCA – o indivíduo pode ter os movimentos da boca afetados, causando a:
·     Dificuldade com a fala – a fala fica comprometida quando os músculos da boca estão afetados. Os problemas com a linguagem vão desde a dificuldade de pronunciar certas letras, ou palavras até a dificuldade completa da comunicação (afasia).

·    Disfagia, ou seja,  dificuldade em mastigar e engolir. É um obstáculo físico à passagem dos alimentos pela região orofaríngea porque os músculos ficam paralisados. Acrescenta-se ainda a dificuldade de cerrar os lábios e de controlar a saliva.

FARINGE – ocorre o atraso ou a inexistência dos movimentos que levam o alimento até o estômago. É conhecido como parésia dos músculos faríngeos. O termo parésia vem do termo paralisia.

ESTÔMAGO – ocorre a dificuldade encontrada nos músculos do estômago. É conhecida como parésia dos músculos estomacais.

OLHOS -  ocorre quando a lesão alcança a região dos olhos e é muito comum na paralisia cerebral. Pode causar desde a baixa visão, a perda do campo visual num dos lados do corpo contrário ao da lesão de um ou nos dois olhos, devido a um dano na artéria cerebral. Isto significa que a região da lesão se encontra no cerebelo. É conhecida como hemianopsia. Pode ocorrer também o estrabismo.

NOS MEMBROS - E conhecida como hipoestesia. É uma diminuição da sensibilidade ao toque (espécie de adormecimento) em determinadas partes do corpo, devido a hipotrofia dos segmentos. Essa insensibilidade pode ser térmica, dolorosa ou profunda.

DEFICIENCIA INTELECTUAL - Ocorre de 30 a 70% dos pacientes. Está mais associada às formas tetraplégicas, diplégicas ou mistas. Em muitos indivíduos que foram criados com superproteção, tem-se a impressão que são deficientes intelectuais. No entanto, não são embora haja uma deficiência intelectual, pode ocorrer um rebaixamento intelectual, devido aos pais, parentes e outras pessoas próximas que os acostumam a fazer tudo para eles, por eles e no lugar, gerando com isto uma acomodação.

EPILEPSIA - Varia de 25 a 35% dos casos, ocorrendo com a forma hemiplégica ou tetraplégica.

DISTÚRBIOS DO COMPORTAMENTO: comumente ocorre com as crianças com inteligência normal ou limítrofe. Sentem-se frustradas devido às limitações motoras, agravadas pela superproteção ou rejeição familiar.

DISTÚRBIOS ORTOPÉDICOS: mesmo submetidos à reabilitação, são comuns as retrações das fibras dos tendões em 50% dos casos. Em 15% dos casos, há a presença de cifoescoliose, ou seja, cifose + escoliose, e/ou a presença da coxa valga.

A cifoescoliose é caracterizado por um deslocamento ou desvio que atinge a coluna vertebral na altura do tórax. É o chamado “corcunda”, uma curva anormal dessa região. A consequência é uma postura inapropriada da coluna vertebral, o que provoca um desgaste progressivo da cartilagem intervertebral. É a mais comum.


Por outro lado, pode haver a coxa valga. Esta é uma deformidade congênita dos ossos que formam a “bacia”. Neste caso, o fêmur não se alinha com o eixo do corpo de forma normal, forçando os joelhos a voltarem-se para dentro. E também conhecida como “perna de vaqueiro” (Brasil). A coxa valga atinge 5% dos casos de Paralisia Cerebral.

Muitas pessoas com Paralisia Cerebral também apresentam a hipomímia, ou seja, a diminuição da capacidade de se expressar por gestos ou pela expressão facial.

É preciso reafirmar que há diferenças entre os portadores de Paralisia Cerebral. Essas diferenças dependem da intensidade do distúrbio.  Isto significa que para umas pessoas o distúrbio é mais leve, para outras é moderado e para um terceiro grupo o distúrbio é severo. E mesmo nestes níveis ainda há gradações. Os menos afetados podem ser mais facilmente recuperados e adaptam-se à vida com mais facilidade. Já os mais comprometidos as chances de recuperação e de adaptação diminuem sensivelmente. 


CONTINUA