sexta-feira, 23 de junho de 2017

CONHECENDO AS PALAVRAS

Não é porque uma pessoa tem paralisia cerebral que ela, necessariamente, precisa ser ignorante quando se trata do uso das palavras.

Ao trabalhar as letras procurei começar pelas que ele já sabia e, em seguida, pelas mais fáceis. Dessa maneira, deixei para o final as que considero mais difíceis como o ce - ci, ge - gi, x, z, h e as estrangeiras como o q, k, w e o y. Essas, eu vou integrando aos poucos. Depois ainda iniciarei as complexas como o nh, ch, lh, gue e gui, o r, s, n e m pós-vogal. E já introduzi o que - qui, qua e quão.

Enquanto isso, aproveito para instruí-lo quanto ao conhecimento das palavras. E procuro sempre utilizar atividades lúdicas antes de aplicar um novo conhecimento. Comecei pela ordenação do alfabeto. Vejamos algumas atividades:

1- ORDEM DO ALFABETO

Primeiro, apresentei a ordem do alfabeto com o alfabeto móvel. E foi mais fácil do que imaginava. Ele praticamente o montou sozinho. Digo praticamente porque houve umas trocas na ordem. E de lá para cá, ele o monta sem erros antes da atividade do dia.


2- COMPLETANDO O ALFABETO:

Ele observa as que faltam, as identifica e cola. Como na  foto abaixo:



3- LETRAS VIZINHAS

Ainda trabalhando a ordem do alfabeto, trabalhei as letras vizinhas, como se faz com os numerais. 



4-COLOCANDO PALAVRAS NA ORDEM ALFABÉTICA

Como ele não consegue escrever e numerar por causa dos espasmos, ele identifica e cola. Então, ao preparar a atividade do garoto, colo uma lista com umas 10 palavras mais ou menos e deixo espaço para que ele cole os numerais de 1 a 10, ou mais se for o caso. Dessa forma ele está aprendendo a colocar as palavras na ordem alfabética. Vejam alguns exemplos de atividade:

 




Com estas atividades trabalho a leitura para desenvolvê-la e ampliar o vocabulário. Trabalho ainda a identificação do registro escrito e a significação de algumas palavras desconhecidas para ele. 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

PARALISIA CEREBRAL E AS ARTES II

Como prometi, mais um pouco de arte com o garoto que atendo. Ele ficou muito tempo nas escolas pelas quais passou e sempre sem fazer e aprender nada. Era aquela velha história: "tem Paralisia Cerebral e muitas dificuldades motoras, então, é melhor não fazer nada porque ele nunca conseguirá fazer coisa alguma". 

Mas, não é bem assim. Em meio a tantas dificuldades há uma pessoa que pensa, sente, deseja quer agir,   como todos nós. o que precisam é um olhar diferenciado para suas dificuldades e tratá-lo como qualquer outra pessoa, respeitadas as suas limitações. 

Como disse na postagem anterior, este é apenas um começo. E como todo começo temos que começar pelo que é básico e bem devagar. Por isso, resolvi verificar se ele sabia rasgar papéis. Separei algumas folhas coloridas de revista e pedi que as rasgasse. 

Foi um susto para ele. Ficou parado com as folhas uma das folhas na mão. Peguei outra e mostrei como fazer. Depois deixei a tarefa a cargo dele. O garoto puxava a folha e com a força que fazia, as folhas se rompiam. Foi preciso pegar em suas maõs e ensinar o movimento de rasgar. Após algumas tentativas, surge um olhar brilhante em seus olhos. Conseguia afinal. Depois, fizemos uma colagem aleatória, que ficou assim:

Semanas depois, voltei aos recortes com as mãos. Agora usando um papel mais grosso (color set). Embora já não fosse surpresa, voltou novamente a puxar o papel. Novamente peguei em suas mãos para repetir o movimento. Foi mais rápido desta vez. E veja como ficou:


A próxima atividade foi perto do Dia das Mães. E preparei uma atividade para que ele ofertasse para a sua genitora. A atividade foi entregue a ele semi pronta. Com o contorno do vaso, um fundo mais escuro com as folhas e pontos marcados para que colasse as flores. E ele poderia cola-las onde achasse que ficassem mais bonitas. E o trabalho ficou assim:


 

No nosso último encontro, resolvi trabalhar com tinta. O objetivo era descobrir que novas coisas ele podia fazer. E o resultado final foi este:



Todas estas atividades não foram trabalhadas simplesmente para "matar o tempo" ou porque era bom e bonito. Todas tiveram objetivos definidos, além de verificar e descobrir novas possibilidades é claro. Rasgar papel ajuda na coordenação motora, na preensão, no movimento dos dedos e do pulso, no movimento contrário das mãos (principalmente da esquerda, que ele pouco utiliza). Ao aumentar a gramatura do papel aumento a dificuldade e torna um exercício conhecido em outro mais complexo.

A atividade para a mãe, foi uma espécie de quebra-çabeça, que além do desenvolvimento da preensão, envolve movimentos mais delicados que se contrapõe com os espasmos que geram os movimentos mais bruscos. E ele precisa aprender a controlá-los.

A pintura envolve tudo isso junto. Une coordenação motora, desenvolvimento da preensão, do gestual mais delicado e a precisão do traço. Além disso, dá mais autoconfiança e melhora a autoestima.

terça-feira, 23 de maio de 2017

PARALISIA CEREBRAL E AS ARTES

O garoto com Paralisia Cerebral que atendo, sempre me surpreende em cada um de nossos encontros, eu também lhe prego algumas surpresas. 

Ele nunca havia feito nenhuma atividade artística. Talvez tivesse visto alguma coisa na televisão ou em alguma revista ou livro. Mas foi só. E por não ter entrado em contato com nenhuma atividade artística temos que começar do zero e ainda levando em consideração os problemas motores, a baixa visão, os preconceitos etc. Por isso, como estava aprendendo as formas, foi por aí que comecei.


Esta foi a primeira atividade artística que fez na vida. Uma colagem aleatória de formas geométricas num espaço limitado. 

A segunda foi esta, também com colagens aleatóris. Com formas já recortadas em vários tamanhos. A única regra dada a ele, foi a de não colar as figuras da mesma cor muito juntas. De vez em quando sugeri que colasse umas sobre as outras, e ele fez. E vejam como ficou bonita. 


No encerramentos das atividades do ano passado, ele fez este trabalho. Não importava o motivo, o objetivo deste trabalho era a observação de uma regra: pequenos círculos para as florzinhas.E eu fiz os galhos e  as folhas.  Além da regra, o objetivo maior foi a preensão de peças pequenas, coisa que encontrava muita dificuldade. 


Embaixo, ele terminando de colar uma das flores deste trabalho.



No início deste ano, queria dar uma arrancada na alfabetização, nos conhecimentos da numeração  e  na coordenação motora fina, não fizemos este tipo de trabalho. Mas, em março, ele fez este trabalho que foi um dos temas de produção de texto, já mostrada anteriormente.


Foi um quebra-cabeça. No caderno havia um esboço da figura. Com peças semi-prontas do robô entregues a ele e usando quadrados e retângulos (formas que estava aprendendo na ocasião). O objetivo era verificar se ele reconhecia as formas no esboço, pois ainda encontra dificuldades para montar quebra-cabeças. Primeiro ele colocou as peças em seus devidos lugares e, por fim, fez a colagem.

Na época da Páscoa, ele fez este outro trabalho. Também uma espécie de quebra-cabeça.  A figura 1, foi como eu entreguei o trabalho a ele. E na figura 2, o resultado.

fig 1

fig 2

Este trabalho também resultou numa produção de texto oral que eu transcrevi para ele. Foi a mensagem que postei anteriormente. Como já se sabe, os textos orais tem o mesmo valor dos escritos, porque o que importa é o pensamento.

Até a próxima postagem com novos trabalhos. Aguardem!

quinta-feira, 4 de maio de 2017

PARALISIA CEREBRAL E AS GRATAS SURPRESAS!

Para as pessoas que ainda acreditam que todos os paralíticos cerebrais não pensam ou não estão nem aí  para essa coisa de criatividade, quero dizer que estão errados.

Para testar a criatividade do rapazinho que está sob meus cuidados para alfabetizar, resolvi pedir umas frases. Como ele não escreve por causa dos espasmos, as frases foram orais e eu reproduzi graficamente o que ele disse.


Eu as reproduzo para vocês: 

"a) Ficar desempregado é ruim
b) Ouvi o rato fazer ruído.
c) O rodo tira água do quintal.
d) O carro vai rápido.
e) A raposa comeu a galinha.
f) A mamãe deixou um recado para mim.
g) Estou rouco."

Foi por causa dessas frases, as primeiras ditas em uma tarefa, que inventei uma produção de texto de pronto. Isso mesmo, de SUPRESA para ele. E no final das contas a surpreendida fui eu. 

Como atividade artística e incluindo as formas geométricas básicas que estava aprendendo, ele tinha que fazer um Robô, colando como sempre porque no momento é o máximo que consegue. Só para terem ideia, é a primeira vez que ele produz um texto na vida. Assim como nas frases, ele foi falando e eu escrevi, reproduzindo sua fala. Vejam se não é de emocionar:





" O ROBÔ

O robô é bonito.
O robô monta carros nas empresas multinacionais de veículos.
Os robôs substituem as pessoas nas linhas de montagem. A intensão é auxiliar no trabalho pesado. Mas, muitas pessoas ficam desempregadas."
  
(texto reproduzido)




Na semana seguinte, estávamos nas vésperas da Páscoa. Pedi que deixasse por escrito uma mensagem para as pessoas ou para sua família.  E com voz firme ele disse: Vou fazer uma mensagem pro mundo. Suspirou fundo e:




MENSAGEM:

"Que o mundo mudasse para melhor, sem descaso com as pessoas". 


(texto reproduzido)





Dias depois, pedi que apontasse e marcasse o barco que estava atrás para trabalhar a percepção visual. E ele acertou de pronto. Após uma pequena conversa sobre o desenho, propus mais um texto. Ele disse se seriaa toda vez assim? 
   -Assim como? - perguntei. 
   - Contando história?
   - Não necessariamente.
   - Está bem, vamos lá. Está pronta?
   - Estou.
E vejam o que saiu:



"OS BARCOS

Dois barcos navegavam no mar. Eles estavam passeando e decidiram ver quem chegaria na praia em primeiro lugar.

Depois de um tempo, o barco de vela azul e amarela chegou em primeiro lugar.

O prêmio pela vitória foi um bom banho de mar."

(texto reproduzido)





Os textos são curtos, é verdade. Mas se levarmos em conta de que NUNCA havia feito nenhum antes, acredito estar ótimo demais.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

TRABALHANDO A MÃO INATIVA III

Todos os exercícios postados aqui são movimentos naturais que todos fazemos diariamente. Não há esforço físico, portanto, não prejudica a ninguém.

Exercício 1

Arrume para este exercício um copo e um pratinho ou tampa de plástico e uma bola pequena. Coloque sobre a mesa, o pratinho ou tampa do lado e o copo ( de boca para baixo) na mesma direção e a  um palmo de distância, mais ou menos.

O exercício consiste no seguinte:
1- pegar a bola do pratinho e levá-lo até o copo e depositá-lo sobre o fundo do copo. Levantar a mão ou voltá-la ao ponto de origem.


2- Repetir o exercício ao contrário, ou seja, pegar a bola do copo e levá-la para o pratinho ou tampa.



Repeti este exercício umas 5 vezes para começar. Quando sentir que começa a ficar fácil, aumente um pouco a distância do copo e aumente 3 vezes a repetição do movimento (de 5 passa para 8 vezes). 

Este exercício trabalha a extensão e relaxamento dos músculos dos dedos, mãos e braço. Trabalha ainda a coordenação motora grossa e fina dos músculos que ficam mais tempo sem atividade e que podem atrofiar. Por último, trabalha no consciente do sujeito com paralisia cerebral de moderada grave percepção de que ele possui um outro braço que pode utilizar.

OBS:  NÃO  PODE AJUDAR COM A MÃO ATIVA.

Mas não espere resultados imediatos. Precisam de muitos estímulos  e muitas repetições para que isso aconteça. 

Exercício 2

O exercício 2 é uma variação do anterior. Os movimentos são os mesmos e usa-se os mesmos objetos e os benefícios são os mesmos também. 


 

A unica diferença é que, no lugar do copo ficar de boca para baixo, ele fica de boca para cima. O objetivo é colocar a bola dentro do copo.

Neste exercício, PODE USAR A MÃO ATIVA APENAS E TÃO SOMENTE PARA TIRAR A BOLA DE DENTRO DO COPO.

Exexrcicio 3 

Idem aos anteriores, a diferença está na altura. Em vez de um copo, use um cone, desses de linha ou barbante.






Logo postarei novos exercícios.

domingo, 9 de abril de 2017

TRABALHANDO COM A MÃO INATIVA II

Olá, amigos. Como prometi, mais algumas atividades para trabalhar a mão inativa do garoto que cuido profissionalmente. Hoje trago para vocês alguns jogos, encontrados facilmente em qualquer escola, pois são brinquedos para as turmas da Educação Infantil.

Esses jogos desenvolvem a coordenação motora fina. No meu caso, o objetivo é fazer com que o garoto movimente a mão inativa. E, quando estiver mais apto, aí siim seguirei os objetivos de cada jogo.

A mão inativa, por ficar constante sem uso, fica mais lenta e mais dificultosa para movimentá-la. Sem contar com os frequentes espasmos. Porém, a novidade motiva pois ninguém propôs tal desafio a ele.

Este primeiro jogo é formado por uma estrutura vertical, com pequenos seguimentos com certa inclinação. Ele possui uma espécie de carrinho (foto 1) que deve ser colocado nos seguimentos do mais baixo para o mais alto, para que faça o exercício de erguer o braço. Primeiro, começo com a mão ativa para aprender como fazer. Ele sorri cada vez que o carrinho desce. 

Depois ele repete com a mão esquerda, a inativa (fig 2). Ele encontrou muita dificuldade em colocar o carrinho no lugar com essa mão. E percebo que ele ajuda com a outra mão. No começo é assim mesmo.


  

 Este outro exercício trata-se de um jogo aramado e chama-se Montanha Russa. O objetivo é passar as peças de um lado para outro usando apenas a mão inativa (fig 3). Como os arames se entrelaçam, a dificuldade é maior para a mão inativa. Ele, em certos trechos, ajuda com a outra mão. Não tem importância, pois o movimento que quero que ele realize  é o de erguer o braço inativo.

(fig 3)

Este terceiro, é para Coordenação Motora. Mas quero que ele movimente a mão inativa movimentando a mão de um lado para outro. Pedi que ele e escolhesse um dos movimentos. Ele escolheu o helicóptero. Como sempre, faz primeiro com a mão direita para aprender e depois com a esquerda. Porém, encontrou muita dificuldade em manusear a figura e fazer o movimento de ir e voltar, mesmo com a mão ativa. Por isso, não segui adiante. Espero outro momento para repeti-lo.

 
fig 4                                                  fig 5

Este é um jogo de construção. O objetivo é construir uma estrutura colocando as peças uma sobre as outras. Este jogo desenvolve a criatividade, mostra os conhecimentos prévios e trabalha a paciência e a delicadeza dos movimentos.  Os espasmos atrapalham bastante, mas ele não desiste. Começou com a mão direita e quando pedi que colocasse algumas peças com a mão esquerda, desmoronou o que havia feito. Mas logo começo outra construção  (fig 6) e vejam o que ele construiu na figura 7:

fig 6                                          fig 7

O quinto exercício é um Jogo da Velha (fig 8) que usei como encaixe. Ele tirava a bolinha de um lugar e colocava na mesa. Depois, pegava da mesa com a mão direita, ajeitava na mão esquerda e colocava nos pinos. Apesar da dificuldade, foi muito bem.

fig 8

Por fim, rolar uma bola sobre a mesa com a mão inativa até onde alcançasse. O objetivo é esticar o braço para a frente (fig 9). Depois de algumas vezes, usando a mesma bola, devia segurar a bola com a mão inativa para trabalhar a preensão, abrir o braço lateralmente e soltar a bola (fig 10). Exercício que foi repetido algumas vezes também.

fig 9                                                     fig 10

Quando houver mais exercícios posto novamente.
Aguardem.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

TRABALHANDO COM A MÃO INATIVA

As crianças e jovens com Paralisia Cerebral de moderado a grave possuem dois ou mais membros inativos. Em pequenos movimentos, os membros superiores são os mais necessários. Por isso, precisam ser trabalhados para que não atrofiem por completo.

Porém trabalhar esses membros têm que ser realizado com muito cuidado para não causar um mal maior. Por isso, escolho atividades naturais, coisas que essas pessoas possam fazer no dia a dia. tudo muito natural e sem esforço. como por exemplo, segurar vários objetos já que a mobilidade do garoto que cuido tem alguma mobilidade. E quando percebo que a dificuldade é grande, aborto o exercício.


Apoiar a mão sobre a mesa e segurar o caderno é um desses exercícios. Não há esforço nisso e o garoto toma conhecimento de novas possibilidades para essa mão.

Segurar as peças de um quebra-cabeças para que não saiam do lugar é outra forma de movimentar a mão inativa.

 

Segurar a forma sobre o papel par que contorne com a outra mão também não exige esforço e é algo que se pode fazer no cotidiano. Como viram há muita coisas que, crianças e jovens, podem fazer com suas mãos inativas.

Mais exercícios serão mostrados na próxima  postagem.
AGUARDEM!