sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A AVALIAÇÃO, O DIAGNÓSTICO e TRATAMENTO DA PARALISIA CEREBRAL

Nenhum bebê que nasce com Paralisia Cerebral apresenta estigma, ou seja, sinais de que possui uma lesão cerebral. Mesmo os pés equinovaros (voltados para dentro e joelhos abertos para fora) podem ser facilmente confundidos com outras causas. Isto significa que não há como saber.


Durante os três primeiros meses de vida também não apresentam qualquer indicio de que há algo de errado. Esta é uma fase de reflexos e todos os bebês passam por ela. Já no 4º mês, alguns sinais podem ser observados. As mamadas que eram fartas nos meses anteriores, parecem não esvaziar completamente os seios. Engasgos e golfadas tornam-se mais frequentes a cada semana.

A partir do 4º mês, os movimentos de pernas e braços diminuem naturalmente para todos os bebês, incluindo quem tem Paralisia Cerebral. É nesta época que os movimentos reflexos vão cedendo espaço para os movimentos voluntários. Erguer os braços, estirar as pernas de quando em quando, mudar a cabeça de posição são ações normais para a maioria dos bebês. Mas isto não acontece com quem tem Paralisia Cerebral. Embora queiram, não conseguem fazê-lo.

Durante o final do 4º e meados do 5º mês podem surgir movimentos exagerado, semelhantes a sobressalto em que braços e pernas estiram e a musculatura ficar tensa e endurecida ou aparecer movimentos muito rápidos. Estes movimentos são facilmente percebidos pelas mães porque são bastante estranhos porque são frequentes e repetitivos. E se aparecerem, é o momento em que a família deve procurar ajuda profissional, porque há algo de errado. Bebês normais não apresentam esses movimentos.


Infelizmente, diante destes sintomas, as mães procuram se aconselhar com pessoas “mais experientes”. Costumeiramente, essas pessoas costumam dizer afirmar “que está tudo bem, todos os bebês agem dessa maneira, que é melhor esperar mais um pouco porque pode ser algo passageiro”. E assim, o tempo vai passando.

Mãe, lembre-se:
·        Siga a sua intuição ao se deparar com movimentos estranhos de seu filho e procure rapidamente o pediatra e insista numa pesquisa neurológica.

Além do tempo gasto com os tais “conselhos”, marcar as consultas, fazer os exames e esperar pelos resultados leva mais outro tempo. E se fizermos as contas o diagnóstico acaba acontecendo quando o bebê terá pouco mais de um ano. E aí pode ser tarde demais.

A Paralisia Cerebral se instala aos poucos. Aparece um efeito aqui, outro ali. E quando os efeitos acontecem, a lesão já fez um bom estrago, minando e emperrando a musculatura e as articulações nos movimentos voluntários. E esse estrago é devastador. Por isso, quanto mais depressa for diagnosticado e tratado, menos efeitos devastadores a Paralisia Cerebral produzirá porque esses efeitos serão monitorados e haverá maior controle sobre eles.

Lembre-se:
·        Pense sempre que a rapidez ou a demora na procura do profissional pode definir a gravidade que seu bebê terá no futuro.


O DIAGNÓSTICO

O pediatra deve encaminhar ao neurologista pediátrico. Este, por sua vez, precisa avaliar as condições físicas do bebê, ou seja:
·    - Verificar a presença de atrasos no desenvolvimento motor, se são ou não persistentes, se são anormais ou não, e se os reflexos defensivos (se existe ou não o apoio do corpo sobre os braços, como se fizesse uma flexão);

·      -  Entrevistar os pais para obter detalhes do quando e como foram percebidos os efeitos nos movimentos e se há outros casos na família.

·        - Realizar exames físicos minuciosos para eliminar a possibilidade de degeneração do SNC, de tumores espinhais ou distrofia muscular (doença ataca e atrofia os músculos levando à morte prematura).

·        -   Encaminhar para exames com outros profissionais, tais como: eletroencefalograma (EEG), tomografia computadorizada (TC), tomografia de Emissão de Positrons (PEC-TC) – para a localização da lesão no espaço cerebral com mais precisão, para detectar problemas no ramo central dos neurónios (desmielinização), coágulos sanguíneos ou células cancerígenas no cérebro, detectar doenças desmielinizantes e processos infiltrativos (infecções). É um exame caro e os planos de saúde que muitas vezes não os fazem. Exames adicionais podem incluir testes das funções auditiva e visual. De posse de todas estas informações, é encaminhado para o tratamento.

O TRATAMENTO

O tratamento também é multidisciplinar, ou seja, realizado por um grupo de profissionais de diferentes setores e que trabalham em conjunto, tais como: otorrinolaringologista, oftalmologista, ortodontistas, ortopedistas e cirurgiões ortopédicos e outros (se for preciso), que cuidarão do controle físico. Além destes, o psicólogo (ajudar e orientar a família), o terapeuta ocupacional (ensinar a trabalhar os movimentos necessários como mastigar, engolir, movimentar o corpo e os membros), fonoaudiologistas (ensinar os movimentos da fala), e mais tarde, o psicopedagogo (para acompanhar as questões escolares).

Todos esses profissionais possuem abordagens e objetivos específicos a serem cumpridos no tratamento e um objetivo comum: a reabilitação da pessoa com Paralisia Cerebral. São tratamentos demorados, ou seja, levam alguns anos dependendo de cada caso. No entanto, é um trabalho benéfico, sendo que nenhum deles pode ser desprezado ou substituído.

Embora cada profissional faça a sua parte individualmente, todos colaboram para um único fim: a reabilitação física, mental e emocional do paciente. Reabilitar significa torná-lo capaz de realizar coisas com autonomia (por ele mesmo) que são comuns no cotidiano. É a autonomia que nos traz o bem-estar e nos prepara para o futuro.

sábado, 6 de janeiro de 2018

EFEITOS DA PARALISIA CEREBRAL

A Paralisia Cerebral é diagnosticada pelos efeitos que ela causa nos indivíduos. Sendo assim, o diagnóstico pode ser feito pela observação das disfunções (problemas) motoras características da região piramidal, da região extrapiramidal ou pela topografia dos prejuízos que os indivíduos apresentam.

1- AS DISFUNÇÕES MOTORAS NA REGIÃO EXTRAPIRAMIDAL

Entende-se por disfunção o mau funcionamento dos músculos que atuam nos movimentos provocados por uma lesão. Essa disfunção depende do tamanho da lesão (grande ou pequena). Motora, porque se referem aos movimentos. Logo, por serem provocados pela lesão variam, os movimentos são anormais e involuntários. A maioria desses movimentos não provocam dores como muitas pessoas acreditam. 

Como já vimos, a região extrapiramidal são os caminhos antes e depois de sua junção, chamada de “pirâmide”. São eles:

a) as atetoses – que são movimentos lentos, contorcidos e com tremor nos dedos. Podem acontecer nas mãos e/ou nos pés. Em alguns casos, pode-se perceber esses movimentos também nos braços, pernas, pescoço e língua.


b) as ataxias – é a falta de coordenação dos movimentos voluntários e do equilíbrio que influencia no desempenho funcional. Este movimento aparece em 88% dos casos da PC.
c)  coreia  ou choreia – é um movimento desordenados e rápidos assemelhando-se a uma dança. 

d)  os espasmos, espásticos ou hipertônicos – causam um aumento do tono muscular, ou seja, ficam enrijecidos.

e) os mistos – Qualquer um desses tipos de movimentos pode aparecer em conjunto com outro.

f) os distônicos – são os movimentos que sofrem contrações involuntárias e são repetitivos. Apenas os movimentos distônicos podem produzir dores em certas partes do corpo, pois obriga o indivíduo a certas torsões ou posturas inadequadas.
Estes movimentos perduram pela vida a fora.


2- TOPOGRAFIA DOS PREJUÍZOS NA PESSOA

A localização exata da lesão é chamada de topografia. Como já vimos, a localização da lesão pode estar antes ou depois da “pirâmide”; dentro dela, no cerebelo ou no SNC (Sistema Nervoso Central. Dependendo dessa identificação, é preciso conhecer a extensão da lesão e a(s) área(s) afetada(s).  Por prejuízos entende-se os membros e órgãos afetados, ou seja, paralizados. Esses prejuízos podem ser:

a) a hemiplegia - é a paralisação dos membros, sendo os mais comuns o dos membros superiores. A hemiplegia sempre vem acompanhada de movimentos espásticos (espasmos) e da hiperreflexia (exaltação ou exagero nos movimentos). Essa reação é involuntária e revela que a lesão se encontra antes da região piramidal.
pés equinovara

Na hemiplegia, os membros superiores e os inferiores ficam semiflexionados. As pernas podem ficar hiperestendidas, os pés assumem a postura equinovara (pés voltados para dentro e dedos muito flexionados em arco) e pode aparecer um reflexo, no qual os dedos do pé se estendem e se abrem em forma de leque. Este reflexo é conhecido como Reflexo ou Sinal de Babinski.

O Reflexo de Babinski é um reflexo plantar (da sola do pé) que indica lesão na medula espinhal (nos cordões nervosos que formam o Sistema Nervoso SNC. Suas causas podem ser: anemia perniciosa, anestesias, ataxia de Friedrich, acidente vascular cerebral (AVC); encefalopatia hepática, esclerose lateral amiotrófica (ELA), hipóxia. meningite, traumatismo craniano, poliomielite dentre outras.

b) a hemiplegia bilateral – é a paralização que ocorrer com os membros do mesmo lado do corpo, ou seja, com o braço e a perna do lado direito ou do lado esquerdo.

c) A quantidade de membros paralisados recebe a seguinte classificação:
·         monoplegia - um só membro (superior ou inferior)
·         diplegia – dois membros, podendo ser os dois braços, duas pernas ou um braço e uma das pernas. Ocorre em 10 a 30 % dos pacientes, sendo a mais comum em prematuros.
·         triplegia – três membros afetados podendo ser os dois braços e uma perna ou as duas pernas e um dos braços. 
·         tetraplegia ou quadriplegia – os 4 membros são afetados. Ocorre de 9 a 43% dos pacientes. A lesão é difusa e bilateral no sistema piramidal, com tetraparesia espastica com intensa semiflexão


Dependendo do tamanho da lesão, outras áreas podem ser afeitadas e é o que chamamos de comorbidades:

BOCA – o indivíduo pode ter os movimentos da boca afetados, causando a:
·     Dificuldade com a fala – a fala fica comprometida quando os músculos da boca estão afetados. Os problemas com a linguagem vão desde a dificuldade de pronunciar certas letras, ou palavras até a dificuldade completa da comunicação (afasia).

·    Disfagia, ou seja,  dificuldade em mastigar e engolir. É um obstáculo físico à passagem dos alimentos pela região orofaríngea porque os músculos ficam paralisados. Acrescenta-se ainda a dificuldade de cerrar os lábios e de controlar a saliva.

FARINGE – ocorre o atraso ou a inexistência dos movimentos que levam o alimento até o estômago. É conhecido como parésia dos músculos faríngeos. O termo parésia vem do termo paralisia.

ESTÔMAGO – ocorre a dificuldade encontrada nos músculos do estômago. É conhecida como parésia dos músculos estomacais.

OLHOS -  ocorre quando a lesão alcança a região dos olhos e é muito comum na paralisia cerebral. Pode causar desde a baixa visão, a perda do campo visual num dos lados do corpo contrário ao da lesão de um ou nos dois olhos, devido a um dano na artéria cerebral. Isto significa que a região da lesão se encontra no cerebelo. É conhecida como hemianopsia. Pode ocorrer também o estrabismo.

NOS MEMBROS - E conhecida como hipoestesia. É uma diminuição da sensibilidade ao toque (espécie de adormecimento) em determinadas partes do corpo, devido a hipotrofia dos segmentos. Essa insensibilidade pode ser térmica, dolorosa ou profunda.

DEFICIENCIA INTELECTUAL - Ocorre de 30 a 70% dos pacientes. Está mais associada às formas tetraplégicas, diplégicas ou mistas. Em muitos indivíduos que foram criados com superproteção, tem-se a impressão que são deficientes intelectuais. No entanto, não são embora haja uma deficiência intelectual, pode ocorrer um rebaixamento intelectual, devido aos pais, parentes e outras pessoas próximas que os acostumam a fazer tudo para eles, por eles e no lugar, gerando com isto uma acomodação.

EPILEPSIA - Varia de 25 a 35% dos casos, ocorrendo com a forma hemiplégica ou tetraplégica.

DISTÚRBIOS DO COMPORTAMENTO: comumente ocorre com as crianças com inteligência normal ou limítrofe. Sentem-se frustradas devido às limitações motoras, agravadas pela superproteção ou rejeição familiar.

DISTÚRBIOS ORTOPÉDICOS: mesmo submetidos à reabilitação, são comuns as retrações das fibras dos tendões em 50% dos casos. Em 15% dos casos, há a presença de cifoescoliose, ou seja, cifose + escoliose, e/ou a presença da coxa valga.

A cifoescoliose é caracterizado por um deslocamento ou desvio que atinge a coluna vertebral na altura do tórax. É o chamado “corcunda”, uma curva anormal dessa região. A consequência é uma postura inapropriada da coluna vertebral, o que provoca um desgaste progressivo da cartilagem intervertebral. É a mais comum.


Por outro lado, pode haver a coxa valga. Esta é uma deformidade congênita dos ossos que formam a “bacia”. Neste caso, o fêmur não se alinha com o eixo do corpo de forma normal, forçando os joelhos a voltarem-se para dentro. E também conhecida como “perna de vaqueiro” (Brasil). A coxa valga atinge 5% dos casos de Paralisia Cerebral.

Muitas pessoas com Paralisia Cerebral também apresentam a hipomímia, ou seja, a diminuição da capacidade de se expressar por gestos ou pela expressão facial.

É preciso reafirmar que há diferenças entre os portadores de Paralisia Cerebral. Essas diferenças dependem da intensidade do distúrbio.  Isto significa que para umas pessoas o distúrbio é mais leve, para outras é moderado e para um terceiro grupo o distúrbio é severo. E mesmo nestes níveis ainda há gradações. Os menos afetados podem ser mais facilmente recuperados e adaptam-se à vida com mais facilidade. Já os mais comprometidos as chances de recuperação e de adaptação diminuem sensivelmente. 


CONTINUA


domingo, 24 de dezembro de 2017

É TEMPO DE REFLETIR: A CRIANÇA DEVE ACREDITAR OU NÃO EM PAPAI NOEL?

Fantasiar faz parte do mundo infantil. É por meio das fantasias que as crianças pequenas se desenvolvem, compreendem o mundo à sua volta e resolvem suas questões internas.

Para os adultos, as brincadeiras infantis são meros passatempos. Estudos científicos comprovam que a atividade de brincar é coisa séria para elas. Mesmo se divertindo, elas recriam o mundo real da forma como o entendem. Os personagens que criam ou repetem (sendo os dos desenhos que assiste ou dos contos de fadas) são importantíssimos não só para a educação dela como para a criação de valores morais, sociais e do que virá a ser a personalidade delas quando os pais sabem aproveitá-los.

Vivenciar o mundo fantástico é algo natural e a interferência dos adultos nesse quesito pode ajudar ou atrapalhar o bom desenvolvimento da criança. Brincar de faz-de-conta é bom porque além de eliminar muitos medos e trabalhar suas emoções tornam as crianças mais criativas e inventivas na solução de seus próprios problemas, de problemas criados por outros ou pela vida.

Muitos pais preferem educá-las na realidade com receio de que tenham uma visão distorcida da vida. No entanto, viver apenas a realidade é algo terrível para elas. Geram mais medos e não aprendem a lidar com suas emoções. Educadas dessa forma tornam-se pessoas duras e amargas, medrosas, ansiosas e incertas sobre tudo o que se relaciona ao futuro.

Há que se prever também nessa questão a grande influência da mídia em todas as suas formas. O interesse comercial com relação a determinados personagens é grande e geram uma série de estratégias de marketing onde os personagens dos desenhos ou dos contos de fada estão presentes em diversos produtos como roupas, brinquedos, fantasias, materiais escolares durante o ano todo. E, em especial, na Páscoa (os ovos de chocolate) e no Natal (na figura do Papai Noel).

E que mal há em que as crianças acreditem na figura do “bom velhinho”?

parte 1

parte 2

Papai Noel é uma história lendária e secular, que desenvolve nas crianças a generosidade, o compartilhar, o amor e o respeito aos outros (principalmente aos menos favorecidos pela sorte), a compaixão entre outras tantas coisas boas que ele traz. Quanto a ser explorado pela mídia, sua figura equivale a exploração de tantos outros personagens que aderimos e incentivamos sem questionar. Por que impedimos que essa figura se instale como fantasia?
Já vi e continuo vendo muitas crianças acreditarem que são príncipes, princesas, super-heróis. Mas nunca vi nenhuma criança acreditar e querer ser o Papai Noel, nem agir como ele.

Mesmo impedindo a criança vivenciar o “espírito do Natal” e “curtir o Papai Noel”, as famílias lotam as lojas e se engalfinham para conseguir os presentes para elas. Por que será?

Estudos também revelam toda fantasia tem um tempo de duração na vida das crianças. E a realidade se instalará na época adequada e correta para cada criança e sem traumas. Mas depende de como o adulto encara as fantasias infantis.

Há ainda quem não comemore o Natal, justificando que a data do nascimento de Cristo não é essa e que o dia 25 de dezembro é apenas uma convenção. Por que então comemoram os aniversários de cada membro da família com bolos, festas (algumas luxuosas) e presentes? Só por que há um documento escrito e uma data?

Há 2017 anos atrás, ninguém se preocupava com isso. Nasciam e pronto. Apenas de tempos em tempos, o povo era chamado para contagem (senso) da população. E para que este senso fosse realizado, as pessoas tinham que se deslocar da localidade onde viviam para a localidade onde haviam nascido. E for falta desses documento escrito e dia registrado num papel estabeleceu-se essa data (que poderia ser outro dia qualquer do nosso calendário) para comemorar o nascimento de Jesus. É uma convenção? Sim, é. E daí? O importante não é lembrar, de ser generoso e preocupado com os demais?

Aos pais preocupados com estas questões há algumas coisas a fazer:

1-Refletir com as crianças sobre a moral das histórias que assiste ou ouvem e tirar delas o melhor de cada uma, servindo de aprendizado para a vida. 

2- Deixar que a criança fantasie e serem o que quiserem somente enquanto brincam. Nada de levar essa fantasia para a casa dos avós ou em outros lugares como na escola (a menos que seja permitido), nas igrejas, clubes e outros passeios. 

3- Os limites entre as brincadeiras e tarefas que as crianças precisam cumprir devem ser colocados pelos pais e respeitados pelas crianças.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

ENTENDENDO O QUE OCORRE NA PARALISIA CEREBRAL

Este é o nosso cérebro visto de fora. Ele é comum a todos nós.


Agora, num corte vertical, partindo-o ao meio, para que podemos verificar como ele é por dentro.



Agora nos fixaremos nesta imagem muito mais interna do cérebro que a anterior. 




Aproximando mais a imagem, repare nesses fios vermelhos. Eles partem de todas as partes do cérebro. soa fios nervosos e que vão formar a medula (um cordão formado por esses fios todos juntos). A medula fica muito bem protegida pelos ossos da coluna vertebral.
Voltemos aos fios vermelhos. Esses fios são chamados de ramificações motoras e  são os responsáveis por levar informações sobre os movimentos que queremos realizar. Por outro lado, também recebem as ordens do cérebro e as enviam aos músculos para que estes, puxem os ossos. É essa ação de puxar e soltar que os músculos fazem em conjunto com os ossos, que chamamos de "movimento".

Repare agora como eles se unem rapidamente. E como eles descem separados.  Eles seguem assim em direção ao cerebelo. Este órgão primeiro analisa as informações, verifica as condições dos músculos e envia ao cérebro o seu parecer sobre a possibilidade ou não do movimento ser realizado. 
Você deve estar se perguntando por que esses fios se uniram e e se separaram novamente, não é? lembre-se que fizemos um corte e a figura mostra apenas uma parte. Essa parte que não vemos corresponde ao lado direito do cérebro e esses fios chegam das duas partes dele. Nesse ponto de união existe uma espécie de torção que faz com que os fios que vem do lado direito passem para para o lado esquerdo e os do lado esquerdo passem para o direito. Isto porque os fios do lado direito comandam os movimentos do lado esquerdo do corpo e vice-versa.


Agora localize na figura acima, o cerebelo e o bulbo, Compare-os com com o tamanho do cérebro. São pequenos, não é mesmo? Esses órgãos ficam localizados na região acima do pescoço e que costumamos chamar de "nuca".


Se esses fios ou ramificações motoras continuassem torcidos causariam grande estrago tanto no cerebelo quanto no bulbo. Separados não tem problema porque são bem finos e podem atravessar os dois órgãos.


Vamos caminhar mais um pouco na nossa imagem. E veja como entram no cerebelo e no bulbo. 



Penetram de cima para baixo e saem deles. Pouco mais á frente, unem-se novamente.


Caminhemos um pouco mais no nosso desenho. Depois que esses fios entram no bulbo  e percorrem mais da metade desse órgão, eles se unem novamente, tendo uma aparência de um triângulo grosso de um lado e fino no vértice, como uma pirâmide. Por causa dessa aparência, a região é conhecida como "pirâmide" ou "região Piramidal". 

Repare como os fios entram separados e no final 
aparecem como um só e bem grosso.


Isto acontece porque esses fios se preparam para entrarem na coluna vertebral onde ficarão, como já vimos, bem protegidos pelos ossos (vértebras) que possuem um orifício em seu centro. Para entrarem nesse orifício precisam formar um cordão. Por isso ficam bem juntos e se torcem várias vezes. Agora, se unem definitivamente e formam um cordão ou feixe nervoso. 



Veja como entram na coluna vertebral.

Mais adiante se ramificam em três partes: uma para cada membro superior e outro que continha coluna abaixo. Essas ramificações são chamadas de nervos motores. É por causa desses nervos que somos capazes de movimentar antebraço, o braço, a mão e os dedos de ambos os lados. Quase no final da coluna existe outra ramificação. Desta vez, eles seguem na direção dos membros inferiores, ou seja, para as pernas e nos permite movê-las para andar, correr, sentar etc.

 Mas o que isto tem a ver com a Paralisia Cerebral? 


Todos esses fios se referem apenas ao aspecto motor, Mas nesse emaranhado de fios existem vários outros que comandam nosso corpo e tudo o que fazemos e sentimos. Todo esse conjunto é conhecido como Sistema Nervoso Central (SNC). 

Se, por acaso a lesão da Paralisia Cerebral atacar, interromper ou destruir um (ou mais) desses fios antes ou depois da "região piramidal" (a do triângulo dentro do bulbo), é chamada de disfunção extrapiramidal, prejudicando os movimentos porque passa a não funcionar da forma como deveria e apresenta alguns sintomas característicos.

Porém,se a lesão da Paralisia Cerebral atacar, interromper ou destruir os fios dentro do triângulo que se parece com uma pirâmide, provocará outros tipos de sintomas mais perversos que os anteriores. É a chamada disfunção piramidal.


O conhecimento desta região e a localização das lesões definem os tipos e a gravidade da Paralisia Cerebral. Mas isto, trataremos na próxima postagem. Até lá e espero que tenham entendido e gostado.

domingo, 10 de dezembro de 2017

O QUE É A PARALISIA CEREBRAL?

A Paralisia Cerebral é um distúrbio de caráter permanente dos movimentos e da postura. Essa lesão NÃO é progressiva, NEM é degenerativa, e está localizada na região cerebral que controla os movimentos.


Esta lesão que danifica o sistema nervoso central (SNC) ou prejudica o seu funcionamento e que pode ocorrer antes, durante ou depois do parto.

A criança com PC passa pelos mesmos estágios de desenvolvimento físico e mental que todas as outras crianças passam. Apenas apresenta dificuldades motoras dependendo do tamanho da lesão, da sua localização e do que foi afetado por ela. Fora isto, nada mais é diferente.

CAUSAS


As causas da Paralisia Cerebral são variadas. As causas podem ser:
1) desenvolvimento anormal congênito na área motora do cérebro ou do cerebelo;
2) falta de oxigenação do cérebro no momento do parto, partos prematuros ou muito demorados;
3) necessidade do uso de fórceps;
4) eritroblastose é uma incompatibilidade por Rh (se a mãe tiver Rh- e o filho Rh+. Neste caso, o corpo da mãe cria anticorpos que atacam o Rh+ do filho);
5) infecções cerebrais (encefalites)
6) qualquer condição que crie uma anormalidade cerebral ou cerebelar. Como desenvolvimento anormal pode ter como causa um erro genético durante a gestação. Ex: o erro na migração dos neurônios ou uma malformação cerebral ou do cerebelo

INCIDÊNCIA


Bebês nascidos com Paralisia Cerebral no mundo é grande. Corresponde a 10 bebês a cada 1000 nascidos vivos. Parece pouco, mas não é. Contando-se a população mundial aproximada de 6 milhões de pessoas, 600 mil nascem com PC. Nos países mais desenvolvidos, o número é menor (3 para cada grupo de 1000 bebês nascidos vivos), porém nos países mais pobres e menos desenvolvidos (7 ou 8 para cada grupo de 1000 bebês nascidos vivos). Nos EUA nascem 20 mil novas crianças com PC, por ano. No Brasil, como não há estudos e estatísticas que comprovem o número exato, presume-se que seja uma quantidade elevada.

SINTOMAS


É preciso saber que os bebês nascidos com esta alteração NÃO APRESENTAM ESTIGMAS, ou seja, sem sinais ou características físicas visíveis e que mostrem que eles têm paralisia cerebral, como acontecem com nascidos com as Síndromes de Down e da X Frágil. Portanto, pais e médicos não sabem que existe essa alteração. Daí o diagnóstico ser tardio.

 Durante os 3 primeiros meses de vida do bebê tudo ainda é normal. O bebê se alimenta e se movimenta naturalmente por ser uma fase reflexiva, ou seja, os movimentos que ele faz são chamados de reflexos (movimentos são instintivos e não dependem da vontade do bebê).

Somente após o 4º ou 5º mês de vida quando os reflexos terminam e o bebê se movimenta por vontade própria, é que os primeiros sintomas da PC começam a aparecer. Os músculos se enrijecem, as articulações ficam mais dificultosas. O bebê passa a encontrar dificuldade para sugar (sucção) e engolir (deglutição) o leite durante as mamadas. A seguir, o bebê deseja movimentar as pernas ou os braços e não consegue. Demora para virar de lado no berço ou de erguer a cabeça. Podem aparecer movimento descontrolados e/ou exagerados, sinal de que a PC está se instalando.


É quando estes primeiros sintomas aparecem que os pais devem procurar de imediato um neurologista. Embora a PC seja permanente, o diagnóstico e o tratamento precoce ajudam a minimizar os efeitos da lesão.


Dependendo da força com que se instala e do agravamento causado nas condições da pessoa e dos danos que se verifica pela demora do início do tratamento, é que se classifica a PC como: leve, moderada ou severa.

CONTINUA

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

"NÃO SOU INCAPAZ"

"TODO MUNDO ACHA, MAS NÃO SOU INCAPAZ". Esta é uma frase corriqueira que o garoto (que tem paralisia cerebral moderada grave) diz com os olhos marejados de lágrimas em todas as vezes que ele aprende algo novo nos atendimentos. É de cortar o coração. Ele sempre costuma soltar seus desabafos. 

Mas esta frase calou mais fundo recentemente, enquanto aprendia a ADIÇÃO COM RESERVA (ou seja, contas com "vai 1"). 



Como os leitores sabem, comecei o Sistema de Numeração usando tampinhas de embalagens plásticas porque era mais fácil para ele manusear do que os cubinhos do Material Dourado que gosto de usar. Mas deixei-as de lado e passei a usar um material concreto e simbólico de decomposição de numerais. É uma espécie de ábaco.



Com esse material, além de trabalhar o conteúdo matemático em questão, trabalho também: a) a mecânica da operação de adição com reserva; b) a formação e representação simbólica e numérica no concreto, a leitura dos numerais; c)  a formação e a decomposição dos numerais (Visão de Conjunto); d) a contagem; e) a coordenação motora através do encaixe das peças, de esticar e elevar a mão ativa e f)  usar para a mão inativa  para segurar a peça. E tudo sem que ele tenha conhecimento disso. Porém, passo a passo.


PREPARAÇÃO DO NOVO CONTEÚDO

Como é um material novo eu o apresento ao garoto. Deixo que ele o manipule um pouco. Mostro ainda o valor posicional (unidade, dezena e centena) e o local onde serão colocadas as peças (laranja, azul e vermelha) que representam simbolicamente seus valores. 

Ábaco e Visão de Conjunto

Como auxílio de outro material (Visão de Conjunto) são trabalhados: a formação do número, sua decomposição e a leitura. Repito algumas vezes, não só nos dias da apresentação, mas também nos atendimentos subsequentes para que esse mecanismo seja fixado. Num primeiro momento, eu dou o número (dentro da numeração que já foi trabalhada) com a Visão de Conjunto e ele coloca as peças. Num outro momento, eu coloco as peças e ele usa o outro material para representar a quantidade ali colocada. Por último, eu peço o número e ele faz os coloca as peças segundo o valor posicional, representa numericamente com a Visão de Conjunto e faz a leitura do número. 

Enquanto isso, as operações de adição  e subtração simples e a numeração transcorrem normalmente.


ADIÇÃO SIMPLES NO NOVO MATERIAL 



Adicionando pequenas quantidades

As tampinhas ocupavam muito espaço na mesa de trabalho e com os espasmos, muitas vezes havia mistura delas e forçosamente era preciso recomeçar. E como ele já sabia usar o novo material, ficou mais fácil transferir a operação de adição para ele. E comecei com números baixos sem a necessidade dos  famosos "Vai 1".

As operações a serem calculadas estavam no caderno. Líamos o numeral da primeira parcela e ele colocava as peças nos lugares corretos com o material correspondente. Repetíamos da mesma forma com a outra parcela e coloca as peças por cima das que já tinham sido colocadas. Depois, ele contava começando pela unidade (laranja), e as outras cores (azul e vermelho) na sequência. No início eu montei algumas para mostrar-lhe como deveria fazer e depois, deixei a cargo dele. Repetimos "n" vezes, um pouco a cada atendimento.


PREPARANDO A NOÇÃO DE RESERVA

Com o mesmo material desta vez vazio, coloquei 9 unidades (peças laranja) e pedi que contasse. Depois coloquei mais uma e pedi que contasse novamente e pegasse na visão de conjunto o número correspondente. E ele faz.

Fiz ele notar que o 10 tinha dois dígitos e que eles não cabiam no lugar das unidades, pois na unidade só cabe um dígito. Como não entendeu, perguntei a ele quantos sapatos ou tênis ele colocava em cada pé. E ele respondeu que colocava um só. perguntei por que não podia colocar dois ou três? 

- Porque não cabem. - foi a resposta. Ele havia entendido. Depois, foi só fazer a relação entre sua resposta e o que ocorria nas contas.

Mostrei então, que cada 10 unidades pode ser trocada por uma peça azul (valor de dezena) e que devia ser colocada no "palito" ao lado. Disse ainda que ao fazer isso, dizemos "Vai 1". Ele achou engraçado e riu. E o riso se transformou numa gostosa gargalhada. 

AVANÇOS NA NUMERAÇÃO


Só para lembrar.

Depois de repetir várias vezes esse procedimento e com outras quantidades que somadas davam 10, a numeração chegou ao 100. Expliquei a grafia desse número ( CEM) e comparei com a outra palavra  que possui o mesmo som (homófona), mas não a mesma grafia (homógrafa) que é o termo SEM e que significa "falta ou a não existência de". Vocês devem se lembrar, pois já foi postada anteriormente. 

Era, portanto, o momento de trabalharmos uma nova série e que parte do 100 até o 109. E com essa nova série, ele precisava entender a presença do zero na casa da dezena e o um (representando simbolicamente a centena em vermelho) e que ocupa uma casa chamada "CENTENA".  E que os termos: CEM, CENTO E CENTENA querem dizer a mesma coisa (100). Com isto trabalhamos também, além do que já foi mencionado no início: a leitura, a grafia, a oralidade e ampliação do vocabulário.

Explico também que a casa da centena contém todos os grupos, conjuntos ou quantidades de 100 unidades (mostradas concretamente com o Material Dourado) que ocupam essa casa e novos grupos de 100, como o 200, 300, até o 900 e a nomenclatura das 9 centenas (também já postadas em outra oportunidade). Trabalhamos isso repetindo algumas vezes, pois a fixação virá a seu tempo. O objetivo era apenas para saber onde ele se encontra e o que virá pela frente.

A fixação da primeira série transcorreu normalmente com a repetição dos exercícios de rotina (completar a sequencia, maior e menor, vizinhos, etc. Inclui também pares e ímpares).



OPERAÇÕES COM RESERVA NA UNIDADE


                       Retirando as 10 unidades        e          colocando o "VAI 1"                            
Estamos agora na adição com reserva propriamente dita. Mas ainda nas unidades para que fixe bem. E tudo transcorrendo como o esperado: com facilidade e melhor desenvolvimento do garoto. Como todo aprendiz, ás vezes se confunde na nomenclatura. Diz vinte ou quatro quando é o quarenta. Mas é só pedir que observe e pense melhor que tudo se encaixa.  E estou trabalhando este assunto desde novembro do ano passado. Demorado? Sim, é, mas vale a pena porque seus progressos são notórios. E em breve, muito breve mesmo, passaremos para as reservas nas dezenas. 

Retomamos as subtrações simples  com números com centenas também. E em breve, também iniciaremos as subtrações com recurso, ou seja, "contas de emprestar".

Ele mostra ter plena consciência de que está progredindo, principalmente quando compara sua vida antes na escola e a de agora no atendimento. Só não são maiores e mais rápidos porque passou muito tempo dependente dos outros, pois na família todos faziam tudo para ele, por ele e no lugar dele, negligenciando suas vontades e capacidades. na escola, considerado como incapaz, ninguém fazia nada. Ficava lá sentado e dormindo segundo o próprio garoto. E agora, a autonomia não ensinada está lhe sendo sendo cobrada.

O objetivo de trazer esta frase dita pelo garoto como tema desta postagem é o de fazer pais e professores entenderem que, mesmo com uma deficiência, essas crianças e jovens são pessoas e devem se desenvolver integralmente.  

Por desenvolvimento integral de uma pessoa com deficiência entende-se que podemos desenvolver as habilidades e as capacidades que todos possuem e do jeito que conseguem. É ter o direito de receber educação formal (escolar) e informal (vida), ter direito a saúde física, mental e emocional, ter autonomia e ter convivência social. 

A Paralisia Cerebral é formada por uma lesão cerebral por erro, falta de oxigenação ou mutação genética.  Essa lesão não paralisa o cérebro, mas atinge os músculos tornando-os endurecidos. No entanto, as pessoas acreditam que, devido ao termo "paralisia", o cérebro não funciona e tratam essas pessoas como se fossem pessoas incapacitadas de pensar, agir e sentir. 

A única coisa que não pode é deixá-los sem instrução. Não importa a metodologia  usada. O importante é que crianças e jovens com paralisia cerebral seja qualquer que seja seu grau de dificuldade receba o que lhe é devido legalmente: instrução e bom desenvolvimento. E se nenhuma metodologia for capaz de desenvolvê-lo da forma como tem direito e merece, crie uma própria para eles. 


Até a próxima.