domingo, 10 de dezembro de 2017

O QUE É A PARALISIA CEREBRAL?

A Paralisia Cerebral é um distúrbio de caráter permanente dos movimentos e da postura. Essa lesão NÃO é progressiva, NEM é degenerativa, e está localizada na região cerebral que controla os movimentos.


Esta lesão que danifica o sistema nervoso central (SNC) ou prejudica o seu funcionamento e que pode ocorrer antes, durante ou depois do parto.

A criança com PC passa pelos mesmos estágios de desenvolvimento físico e mental que todas as outras crianças passam. Apenas apresenta dificuldades motoras dependendo do tamanho da lesão, da sua localização e do que foi afetado por ela. Fora isto, nada mais é diferente.

CAUSAS


As causas da Paralisia Cerebral são variadas. As causas podem ser:
1) desenvolvimento anormal congênito na área motora do cérebro ou do cerebelo;
2) falta de oxigenação do cérebro no momento do parto, partos prematuros ou muito demorados;
3) necessidade do uso de fórceps;
4) eritroblastose é uma incompatibilidade por Rh (se a mãe tiver Rh- e o filho Rh+. Neste caso, o corpo da mãe cria anticorpos que atacam o Rh+ do filho);
5) infecções cerebrais (encefalites)
6) qualquer condição que crie uma anormalidade cerebral ou cerebelar. Como desenvolvimento anormal pode ter como causa um erro genético durante a gestação. Ex: o erro na migração dos neurônios ou uma malformação cerebral ou do cerebelo

INCIDÊNCIA


Bebês nascidos com Paralisia Cerebral no mundo é grande. Corresponde a 10 bebês a cada 1000 nascidos vivos. Parece pouco, mas não é. Contando-se a população mundial aproximada de 6 milhões de pessoas, 600 mil nascem com PC. Nos países mais desenvolvidos, o número é menor (3 para cada grupo de 1000 bebês nascidos vivos), porém nos países mais pobres e menos desenvolvidos (7 ou 8 para cada grupo de 1000 bebês nascidos vivos). Nos EUA nascem 20 mil novas crianças com PC, por ano. No Brasil, como não há estudos e estatísticas que comprovem o número exato, presume-se que seja uma quantidade elevada.

SINTOMAS


É preciso saber que os bebês nascidos com esta alteração NÃO APRESENTAM ESTIGMAS, ou seja, sem sinais ou características físicas visíveis e que mostrem que eles têm paralisia cerebral, como acontecem com nascidos com as Síndromes de Down e da X Frágil. Portanto, pais e médicos não sabem que existe essa alteração. Daí o diagnóstico ser tardio.

 Durante os 3 primeiros meses de vida do bebê tudo ainda é normal. O bebê se alimenta e se movimenta naturalmente por ser uma fase reflexiva, ou seja, os movimentos que ele faz são chamados de reflexos (movimentos são instintivos e não dependem da vontade do bebê).

Somente após o 4º ou 5º mês de vida quando os reflexos terminam e o bebê se movimenta por vontade própria, é que os primeiros sintomas da PC começam a aparecer. Os músculos se enrijecem, as articulações ficam mais dificultosas. O bebê passa a encontrar dificuldade para sugar (sucção) e engolir (deglutição) o leite durante as mamadas. A seguir, o bebê deseja movimentar as pernas ou os braços e não consegue. Demora para virar de lado no berço ou de erguer a cabeça. Podem aparecer movimento descontrolados e/ou exagerados, sinal de que a PC está se instalando.


É quando estes primeiros sintomas aparecem que os pais devem procurar de imediato um neurologista. Embora a PC seja permanente, o diagnóstico e o tratamento precoce ajudam a minimizar os efeitos da lesão.


Dependendo da força com que se instala e do agravamento causado nas condições da pessoa e dos danos que se verifica pela demora do início do tratamento, é que se classifica a PC como: leve, moderada ou severa.

CONTINUA

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

"NÃO SOU INCAPAZ"

"TODO MUNDO ACHA, MAS NÃO SOU INCAPAZ". Esta é uma frase corriqueira que o garoto (que tem paralisia cerebral moderada grave) diz com os olhos marejados de lágrimas em todas as vezes que ele aprende algo novo nos atendimentos. É de cortar o coração. Ele sempre costuma soltar seus desabafos. 

Mas esta frase calou mais fundo recentemente, enquanto aprendia a ADIÇÃO COM RESERVA (ou seja, contas com "vai 1"). 



Como os leitores sabem, comecei o Sistema de Numeração usando tampinhas de embalagens plásticas porque era mais fácil para ele manusear do que os cubinhos do Material Dourado que gosto de usar. Mas deixei-as de lado e passei a usar um material concreto e simbólico de decomposição de numerais. É uma espécie de ábaco.



Com esse material, além de trabalhar o conteúdo matemático em questão, trabalho também: a) a mecânica da operação de adição com reserva; b) a formação e representação simbólica e numérica no concreto, a leitura dos numerais; c)  a formação e a decomposição dos numerais (Visão de Conjunto); d) a contagem; e) a coordenação motora através do encaixe das peças, de esticar e elevar a mão ativa e f)  usar para a mão inativa  para segurar a peça. E tudo sem que ele tenha conhecimento disso. Porém, passo a passo.


PREPARAÇÃO DO NOVO CONTEÚDO

Como é um material novo eu o apresento ao garoto. Deixo que ele o manipule um pouco. Mostro ainda o valor posicional (unidade, dezena e centena) e o local onde serão colocadas as peças (laranja, azul e vermelha) que representam simbolicamente seus valores. 

Ábaco e Visão de Conjunto

Como auxílio de outro material (Visão de Conjunto) são trabalhados: a formação do número, sua decomposição e a leitura. Repito algumas vezes, não só nos dias da apresentação, mas também nos atendimentos subsequentes para que esse mecanismo seja fixado. Num primeiro momento, eu dou o número (dentro da numeração que já foi trabalhada) com a Visão de Conjunto e ele coloca as peças. Num outro momento, eu coloco as peças e ele usa o outro material para representar a quantidade ali colocada. Por último, eu peço o número e ele faz os coloca as peças segundo o valor posicional, representa numericamente com a Visão de Conjunto e faz a leitura do número. 

Enquanto isso, as operações de adição  e subtração simples e a numeração transcorrem normalmente.


ADIÇÃO SIMPLES NO NOVO MATERIAL 



Adicionando pequenas quantidades

As tampinhas ocupavam muito espaço na mesa de trabalho e com os espasmos, muitas vezes havia mistura delas e forçosamente era preciso recomeçar. E como ele já sabia usar o novo material, ficou mais fácil transferir a operação de adição para ele. E comecei com números baixos sem a necessidade dos  famosos "Vai 1".

As operações a serem calculadas estavam no caderno. Líamos o numeral da primeira parcela e ele colocava as peças nos lugares corretos com o material correspondente. Repetíamos da mesma forma com a outra parcela e coloca as peças por cima das que já tinham sido colocadas. Depois, ele contava começando pela unidade (laranja), e as outras cores (azul e vermelho) na sequência. No início eu montei algumas para mostrar-lhe como deveria fazer e depois, deixei a cargo dele. Repetimos "n" vezes, um pouco a cada atendimento.


PREPARANDO A NOÇÃO DE RESERVA

Com o mesmo material desta vez vazio, coloquei 9 unidades (peças laranja) e pedi que contasse. Depois coloquei mais uma e pedi que contasse novamente e pegasse na visão de conjunto o número correspondente. E ele faz.

Fiz ele notar que o 10 tinha dois dígitos e que eles não cabiam no lugar das unidades, pois na unidade só cabe um dígito. Como não entendeu, perguntei a ele quantos sapatos ou tênis ele colocava em cada pé. E ele respondeu que colocava um só. perguntei por que não podia colocar dois ou três? 

- Porque não cabem. - foi a resposta. Ele havia entendido. Depois, foi só fazer a relação entre sua resposta e o que ocorria nas contas.

Mostrei então, que cada 10 unidades pode ser trocada por uma peça azul (valor de dezena) e que devia ser colocada no "palito" ao lado. Disse ainda que ao fazer isso, dizemos "Vai 1". Ele achou engraçado e riu. E o riso se transformou numa gostosa gargalhada. 

AVANÇOS NA NUMERAÇÃO


Só para lembrar.

Depois de repetir várias vezes esse procedimento e com outras quantidades que somadas davam 10, a numeração chegou ao 100. Expliquei a grafia desse número ( CEM) e comparei com a outra palavra  que possui o mesmo som (homófona), mas não a mesma grafia (homógrafa) que é o termo SEM e que significa "falta ou a não existência de". Vocês devem se lembrar, pois já foi postada anteriormente. 

Era, portanto, o momento de trabalharmos uma nova série e que parte do 100 até o 109. E com essa nova série, ele precisava entender a presença do zero na casa da dezena e o um (representando simbolicamente a centena em vermelho) e que ocupa uma casa chamada "CENTENA".  E que os termos: CEM, CENTO E CENTENA querem dizer a mesma coisa (100). Com isto trabalhamos também, além do que já foi mencionado no início: a leitura, a grafia, a oralidade e ampliação do vocabulário.

Explico também que a casa da centena contém todos os grupos, conjuntos ou quantidades de 100 unidades (mostradas concretamente com o Material Dourado) que ocupam essa casa e novos grupos de 100, como o 200, 300, até o 900 e a nomenclatura das 9 centenas (também já postadas em outra oportunidade). Trabalhamos isso repetindo algumas vezes, pois a fixação virá a seu tempo. O objetivo era apenas para saber onde ele se encontra e o que virá pela frente.

A fixação da primeira série transcorreu normalmente com a repetição dos exercícios de rotina (completar a sequencia, maior e menor, vizinhos, etc. Inclui também pares e ímpares).



OPERAÇÕES COM RESERVA NA UNIDADE


                       Retirando as 10 unidades        e          colocando o "VAI 1"                            
Estamos agora na adição com reserva propriamente dita. Mas ainda nas unidades para que fixe bem. E tudo transcorrendo como o esperado: com facilidade e melhor desenvolvimento do garoto. Como todo aprendiz, ás vezes se confunde na nomenclatura. Diz vinte ou quatro quando é o quarenta. Mas é só pedir que observe e pense melhor que tudo se encaixa.  E estou trabalhando este assunto desde novembro do ano passado. Demorado? Sim, é, mas vale a pena porque seus progressos são notórios. E em breve, muito breve mesmo, passaremos para as reservas nas dezenas. 

Retomamos as subtrações simples  com números com centenas também. E em breve, também iniciaremos as subtrações com recurso, ou seja, "contas de emprestar".

Ele mostra ter plena consciência de que está progredindo, principalmente quando compara sua vida antes na escola e a de agora no atendimento. Só não são maiores e mais rápidos porque passou muito tempo dependente dos outros, pois na família todos faziam tudo para ele, por ele e no lugar dele, negligenciando suas vontades e capacidades. na escola, considerado como incapaz, ninguém fazia nada. Ficava lá sentado e dormindo segundo o próprio garoto. E agora, a autonomia não ensinada está lhe sendo sendo cobrada.

O objetivo de trazer esta frase dita pelo garoto como tema desta postagem é o de fazer pais e professores entenderem que, mesmo com uma deficiência, essas crianças e jovens são pessoas e devem se desenvolver integralmente.  

Por desenvolvimento integral de uma pessoa com deficiência entende-se que podemos desenvolver as habilidades e as capacidades que todos possuem e do jeito que conseguem. É ter o direito de receber educação formal (escolar) e informal (vida), ter direito a saúde física, mental e emocional, ter autonomia e ter convivência social. 

A Paralisia Cerebral é formada por uma lesão cerebral por erro, falta de oxigenação ou mutação genética.  Essa lesão não paralisa o cérebro, mas atinge os músculos tornando-os endurecidos. No entanto, as pessoas acreditam que, devido ao termo "paralisia", o cérebro não funciona e tratam essas pessoas como se fossem pessoas incapacitadas de pensar, agir e sentir. 

A única coisa que não pode é deixá-los sem instrução. Não importa a metodologia  usada. O importante é que crianças e jovens com paralisia cerebral seja qualquer que seja seu grau de dificuldade receba o que lhe é devido legalmente: instrução e bom desenvolvimento. E se nenhuma metodologia for capaz de desenvolvê-lo da forma como tem direito e merece, crie uma própria para eles. 


Até a próxima.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A SOLUÇÃO PARA O DOWN

Voltando à postagem "NEM TUDO SÃO FLORES" fiquei de mostrar a solução encontrada para o problema do Down que se recusava a fazer as atividades. Aquela recusa não era algo pessoal, pois quando brincamos era bastante receptivo e o fato de encostar a cabeça no meu peito mostrava afeto e confiança.Se fosse algo pessoal, isto não aconteceria. E, se não era nada comigo, só poderia ser com as atividades. 

Decidi mudar tudo. E talvez o seu protagonismo seria a solução. Mas como ele não escreve, pinta rabiscando e não desenha? Mas é claro que fica mais difícil, no entanto não é impossível.  Se o garoto com Paralisia Cerebral cola porque não escreve, por que não o Down? E foi o que fiz.

Preparei uma atividade em que me mostrasse o que sabe e fizesse alguma coisa sozinho. Preparei desenhos e palavras e letras correspondentes a eles. E percebi que ele conhece bem as vogais. Entreguei a cola e vejam como a tarefa ficou:


Em seguida, colou na estrela todas as vogais e sozinho.


Saberia outras coisas? Reconheceria algumas palavras? E foi o que eu tentei saber.
Novamente os desenhos e palavras soltas. Espalhei-as sobre a mesa, mostrei as figuras uma a uma, e ele escolhia a palavra a ser colada. E ele identificou todas com acerto.

  

Foi o mesmo com a numeração. E posso afirmar com certeza que ele conhece muito bem os numerais de 1 a 9. Porém, não os relaciona com as quantidades. Fiz o mesmo com os numerais. como ele não conta, contei para ele. Enquanto isso, ele já ia pegando o numeral, passava cola e colava (de cabeça para baixo). E eu desvirava para que ficasse na ordem correta. Mas já era algo bom. Pelo menos, tinha agora a certeza de era capaz de identificar.


Colando de cabeça para baixo, o menino mostrava não perceber as direções. para ele tanto fazia se estava na posição correta ou não. Estava feliz por estar fazendo coisas sozinho e isso bastava.

Trabalhando as quantidades, tenho um jogo de numerais de 1 a 9 de EVA. Cada número tem furos na quantidade que cada numeral representa. Dei a ele e vejam:

Só trabalhei essas quantidades nesse dia.

Trabalhei ainda o traçado do DOIS.  Antes de pegar no lápis, ele fez o caminho com bolinhas de gude, cubinho do material dourado e um dado, usou o dedinho entre outras coisas que tinha no momento. Mas do que gostou mesmo, foi de um carrinho desenhado e recortado que ele colou no final do caminho. Já na hora de traçar o dois no pontilhado, esperou que eu pegasse em sua mão. Fizemos juntos os primeiros e o restante fez sozinho. Nada mal, não acham?

 


Trabalhando a coordenação motora fina, fez tudo direitinho e ate com tal capricho não visto em situações anteriores.


Apresenta uma dificuldade imensa em contornar desenhos, principalmente, se as linhas forem curvas, mesmo pegando em sua mão. Os rabiscos que você vê são do colorido. Ele não conhece também os limites de uma figura.




Trabalhando outras noções confirmo suas dificuldades. Para colorir o baixo inicia pintando a caixa maior. Digo "NAO" e ele colore a outra. Se soubesse, iria direto na caixa mais baixa. E insisto com outros desenhos.


  
Peço agora que dê um colorido no ALTO  e ao apontar para o pequeno, digo: "alto é igual ao grande no desenho". Imediatamente ele vira o lápis para o outro desenho e o colore.  E isso só me dá a certeza de que ele só conhece o que é "GRANDE e PEQUENO".


 RECADO que quero deixar como a pais e professores sobre este assunto é que:

 1- não estou aqui para reclamar da função que optei por seguir, nem simplesmente para expor  as dificuldades de uma criança, nem mesmo para ridicularizá-la diante dos leitores. O objetivo é mostrar que num atendimento psicopedagógico, as coisas acontecem do mesmo jeito como em casa ou na escola. As dificuldades que enfrentamos são as mesmas. 

2- que a maioria dos professores encaram a deficiência intelectual como incapacidade. E não buscam outras alternativas. Dá trabalho? Sim, dá. Dá trabalho de pesquisa, de criatividade, de fazer materiais específicos e alternativos, de pensar em uma nova solução. Mas é compensador.

3- a maioria ainda acredita que, por ter um ou mais deficientes intelectuais numa sala de aula comum já está ajudando essa(s) criança(s). Em parte está: nas sociabilidade. Mas uma pessoa vive apenas do social? Eu acredito que para viver uma criança precisa de várias habilidades, de autonomia e daquilo que consegue aprender. Mesmo tendo uma deficiência isso é importante. E precisamos mostrar a elas alternativas de ação. Se não dá de um jeito X, existem outras maneiras, outras formas, outras opções. E todas são válidas.

4- pais e professores devem pensar no futuro dessa criança. E ela será um adulto no futuro. Que pais deixam de existir um dia pois ninguém é eterno. E os professores passam por sua vida como uma lufada de vento. E quem cuidará delas? Como sobreviverão se isto acontecer? 

5- que uma recusa nem sempre é afetiva. A mesmice das atividades propostas aos deficientes intelectuais gera o enfado. As repetições que tanto falo, não significa que devam ser sempre da mesma forma (o pontilhado, por exemplo). Busque outras formas para trabalhar o assunto. Lembre que: o assunto deve ser repetido para sua fixação na memória de longo prazo, a forma NÃO tem essa necessidade.

6- que, mais importante que a inclusão (porque mal nascemos já estamos inclusos num grupo social, a família, e em outro grupo maior, o mundo) é a INSERÇÃO.  Aceitar um deficiente intelectual na escola e colocá-lo junto com uma turma de mesma idade é INCLUSÃO. Bem diferente de INSERÇÃO.  Inserir é tratá-la como gente, como igual a todos, com direitos e deveres que devem ser respeitados, aprendidos, desenvolvidos e respeitados. E isto, poucas escolas tem feito. Que me desculpem meus colegas professores, mas o que tem sido feito com este aluno, que fizeram com o garoto com paralisia cerebral não se faz.

domingo, 15 de outubro de 2017

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

NEM TUDO SÃO FLORES 2

No primeiro dia de avaliação foi tudo bem. O garoto com Down fez tudo o que foi proposto: exercícios de coordenação motora fina e de preensão, coloriu, cortou papel com as mãos e uma porção de joguinhos, todos de modo muito rápido. E foi nesse mesmo dia que percebi o que postei na vez passada.

Só no último exercício de contornar cobrindo os tracinhos que ele resolveu deixá-lo deste jeito:
 

No segundo dia de avaliação, resolvi continuar com os mesmos tipos de exercício de coordenação motora fina porque ele havia mostrado muita dificuldades e para comprovar ou não as minhas observações. Mesmo antes de começarmos, enquanto arrumava tudo, eu punha alguns objeto em pé e ele derrubava.


Vocês já o conhecem. É o mesmo que usei com o garoto com Paralisia Cerebral em que deveria passar a bola de um pote para outro com uma das mãos e voltar com outra. Recoloquei os potes no seus devidos lugares por várias vezes e bastava me virar para pegar os outros ou a bola e ele tornava a derrubar. Ao mostrar-lhe a bola e como ele deveria fazer e ele parou. Entreguei a bola para ele e, em vez de colocar como havia lhe mostrado, começou a atirá-la sobre os objetos derrubando-os novamente. Por isso, já que não fazia o que lhe era pedido, abortei o exercício e fomos para o caderno.

A partir de então, tudo o que era proposto ele fazia e depois rabiscava.


E foi assim com o restante dos exercícios. Fazia alguma coisa se eu pegasse em sua mão. E assim que eu a soltava, rabiscava tudo. O mesmo aconteceu ao verificar seus conhecimentos em matemática. No primeiro exercício era para traçar o numeral 1 que estava pontilhado e no segundo, colar a quantidade. 

 
exercício 1                            exercício 2

Fiz o primeiro exercício segurando em sua mão, ele deveria fazer o restante.  Eu esta sentada a seu lado, com o braço por trás dele e segurando em sua mão. Os primeiros saíram perfeitos mas os seguintes, mesmo com a mão a mão sobre a dele saíram irregulares. E uma dúvida surgiu: as lições feitas nos cadernos escolares estavam com traçados perfeitos. Talvez as professoras (atual e anteriores) agissem dessa maneira com ele. Perguntei sobre esse fato com a mãe e ela confirmou. 

Outra coisa interessante foi o fato de que, enquanto traçávamos o numeral ele apoiou sua cabeça no meu peito e fechou os olhos, fato que comprovava a minha dúvida e que não direcionava o olhar para o que fazia. Só não rabiscou este porque virei o caderno rapidamente. 

No segundo exercício, com o numeral já traçado onde ele deveria colar a quantidade. Mas enquanto esperava eu passar cola e dar para que ele as colasse, lá estava ele rabiscando o que já estava feito. Reparem que em nenhum momento ele  rabiscou o que ele havia colado. Interessante, não é mesmo? Que significado teria isso? Ou o que estaria querendo expressar?

Com a letra A para verificar se aconhecia, foi a mesma coisa. No primeiro, comecei com a caixa de areia para traçar o A. Ele não queria colocar a mão dentro. Dei então uma bolinha de gude para que o fizesse, mas ele a jogou longe. Dei então um fuso e então, começou a jogar a areia para fora.


Voltamos então para o caderno. O traçado com pontilhado da letra já estava pronto e era só cobrir. E novamente encostou cabeça no meu peito. Fizemos o grande juntos, e os dois primeiros no pontilhado. E pedi que fizesse os demais sozinho. 

No segundo ele pintou sozinho, e ao pedir que traçasse os outros A bem colorido com os gizes de cera, ele simplesmente rabiscou todos. 

 

exercício 1                            exercício 2

Confundiu colorir com cobrir? Ou quis expressar outra coisa? Mas o quê?

Para não ficar maçante, costumo intercalar exercícios de coordenação motora com exercícios de alfabetização (da língua ou de matemática com os de coordenação). e o exercício seguinte era o de contornar o desenho de uma locomotiva. Eram apenas linhas retas, nada difícil para quem sabe ligar figuras.


Assim que o viu o ouviu o que fora pedido,ele derrubou uma cadeira que estava ao seu lado.  E ele rabiscou novamente. Peguei em sua mão novamente e tudo aconteceu novamente: a cabeça no meu peito, o olhar distante e sem direção, mão tão frouxa e abandonada que os traços saíram fora do risco. Peguei o giz azul e pintei a locomotiva para mostrar como deveria pintar. E ele coloriu o restante deste jeito.


Verificando os conhecimentos básicos ou prévios (como é conhecido nas escolas) identifico que não os conhece, portanto, não existem em seu vocabulário. Tanto que rabisca as duas alternativas, o que comprova as minhas observações anteriores.


 


Os termos alto, baixo, grosso e fino, igual e diferente são tão óbvios, mas que ele não conhece. E talvez com receio de errar ou de não fazer direito rabisque os dois.


Ofereço em seguida um quebra-cabeça com apoio visual.  Peças soltas e uma folha com o traçado da forma. Ele coloca cada peça no lugar exato mas de cabeça para baixo. No momento da colagem, entrego a ele num jeito que não seja capaz de desvirar porque não percebe se ficou ou não de cabeça para baixo. Perceberam  que este não foi rabiscado?

Finalizando por hoje, restava alguns minuto para terminar o atendimento. Foi então que resolvi pedir que fizesse algum desenho.  E vejam o que ele fez:

 

Depois de muito pensar sobre o que observei chego a seguinte conclusão: 
1- O fato de rabiscar indica resistência. Mas não é a mim (senão não encostaria sua cabeça no meu peito), mas aos exercícios. Não porque não goste de fazê-los, mas porque só passam isso na escola como verifiquei ao olhar seus cadernos e tarefas escolares. Ele as faz em folhas, com as palavras em pontilhados. E, talvez isto venha ocorrendo desde sua entrada na escola.

2- O fato de a professora (s) pegarem em sua mão sempre para realizar suas tarefas criou um hábito e tirando a chance de conquistar autonomia (fazer sozinho). Talvez no começo precisasse, mas à medida em que foi crescendo teria que perder esse hábito, mesmo com todas as dificuldades.

3- Se esta criança ainda  NUNCA desenhou na vida e não foi estimulado a desenhar (mesmo que seja do seu jeito ou do jeito que consegue) como poderá escrever? Sabe-se que o desenho é a primeira forma de escrita (segundo Lowenfeld) desde os tempos mais primitivos e revivido no desenvolvimento de cada criança. Por isso, ainda se encontra na fase das garatujas desordenadas.

4- Quanto aos conhecimentos prévios ou básicos como poderia saber se ninguém os ensinou? Se não constam do seu vocabulário do dia a dia? Em casa, é mais fácil dizer grande ou pequeno (que é a única noção que conhece bem) do que ensinar as demais noções. Mas não os culpo. Talvez não tenham o conhecimento necessário. Mas e a escola? Por que não supriu esta falta? 

5- Quanto a haver ficado alguns exercícios sem ser rabiscado mostra o seguinte: ele valoriza o que ele faz sozinho e sem ajuda. portanto, não posso agir com agem na escola. Como resolvi esta questão? A resposta fica para a próxima postagem.

Continua

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

NEM TUDO SÃO FLORES

Enquanto as coisas com o garoto com Paralisia Cerebral caminha, vamos agora ver o que se pode fazer com um Down de 10 anos, cursando o 5º ano da escola pública e com sérias dificuldades. O motivo para o encaminhamento para o trabalho psicopedagógico feito pela escola se deve ao fato de que ele irá para o 6º ano (fato já determinado) e como terá muitos professores... deduz-se que ninguém sabe o que fazer com ele. Por esse motivo, fui procurada pelos pais e  trabalho com ele há pouco tempo.

Logo na avaliação inicial  já deu para perceber que, além da deficiência intelectual e da hipotonia (musculatura flácida) característica desta síndrome, ainda apresenta muitas outras dificuldades. Por exemplo, apresenta: 

a) dificuldade de comunicação verbal - sua fala é truncada e enrolada dificultando a compreensão do que ele quer expressar. 

b) dificuldade na coordenação motora grossa - embora ande e corra com as pernas abertas lateralmente e salte apenas com os pés juntos. Ele  faz isso para manter o equilíbrio por conta de problemas motores generalizados.

c) dificuldade na coordenação motora fina - é bastante deficiente. Escreve muito claro, mas tem boa apreensão em todos os dedos, do lápis e de coisas grandes e pequenas.


 

d) dificuldade de atenção e concentração - sua atenção e concentração é dura poucos segundos. Acha tudo interessante, mas logo se dispersa.

e) dificuldades visuais - além da miopia e do astigmatismo, não mantém o olhar sobre o que está fazendo. Por isso, não percebe detalhes seja de cor, forma, tamanho, posição, etc.


f) Quanto ao grafismo - ainda se encontra na fase dos rabiscos desordenados. Gosta  Seus círculos se fecharam recentemente porque ainda mantém alguns abertos. Por isto, ainda não consegue escrever, desenhar, cobrir pontilhados etc.

g) nível de intelectualidade - bem abaixo do padrão para uma criança de 10 anos (idade que possui) e pouco conhecimento de mundo. Muito infantilizados.

h) temperamento voluntarioso - é altamente resistente, principalmente em relação a letras e números. O que ele não gosta ou não quer fazer, ele atira ou derruba. E no caderno, quando ser acha difícil ou não saber fazer, rabisca.

COM RELAÇÃO ÁS TAREFAS ESCOLARES


 


a) identifica algumas letras (as vogais e as cinco primeiras consoantes). 

b) identifica os algarismos de 1 a 9, mas não faz a correspondência com as quantidades que representam, nem efetua a contagem delas.

c) desconhece a maioria dos conceitos básicos, sabendo apenas o que algo grande ou pequeno. E os outros? Esses conceitos são essenciais para a aprendizagem escolar.

Observando seu material escolar, observei que as tarefas estão PERFEITAS. Suas lições são compostas de 1 folha (por dia) com 4 ou 5 palavras chave, escritas com linhas pontilhadas e cuja cobertura estão religiosamente muito bem traçadas e que foram coladas no caderno posteriormente. Embaixo de cada uma, a nota: "feito com ajuda". O que nos leva a supor que, em algum momento da aula, a professora tenha pego em sua mão para traçá-las. Não vi, no caderno, exercícios referentes a numeração, contagem, contas simples ou mais complexas. 


JOGOS E BRINCADEIRAS

São poucos o jogos de que gosta e que faz sua concentração se ampliar um pouco mais (1 ou 2 minutos). 

a) Consegue montar quebra-cabeças com poucas peças e com apoio visual, mas ainda assim, viradas ou colocando peças fora do lugar. Como não percebe as formas direito e outros detalhes (cor, tamanho, posição) de continuidade, sem esse apoio, força as peças com formatos diferentes para que se encaixem. Como não consegue, as esmurra ou as atira para longe sem buscar uma outra alternativa.

b) Tem aversão por algumas texturas, como areia, substâncias molengas (geleca). Mas aceita a massa de modelagem, acredito que, por ser mais consistente. Mas só a rola sobre a mesa, sem construir nada.

c) Em jogos com bola, gosta de chutá-la e correr atrás como fazem todos os meninos de sua idade. No entanto, faltam-lhe outras habilidades, como por exemplo, agarrá-la com as mãos ou de atirá-la na direção de seu parceiro de jogo. Essa habilidade depende essencialmente da observação da trajetória da bola e a utilização de reflexos, como o de esticar o braço na sua direção e de fechar as mãos quando a passar ente elas . Mas como não olha para o que faz, essas habilidades não foram desenvolvidas.

Será um trabalho bem difícil. "Ossos do ofício", _ dirão alguns leitores. Mas se repararmos bem, são os mesmos "ossos" enfrentados pelos pais e professores desta criança. 

Por onde começar? Esta é uma pergunta que todos os psicopedagogos fazem a si mesmos cada vez que inicia um trabalho com uma criança, principalmente se as dificuldades forem dessa magnetude.
Continua